Um artilheiro de 15 anos

Um artilheiro de 15 anos

Por: Odir Cunha

O Santos depende de seus Meninos desde sempre. Uma dessas ocasiões de maior relevância ocorreu justo em um confronto com o Vasco, no mesmo Pacaembu em que enfrentará o time carioca nesta quinta-feira, às 20 horas, em jogo atrasado do primeiro turno do Brasileiro. Era um domingo, 17 de maio de 1959 e o Santos, diante de 21 mil pessoas, buscava o seu primeiro título do Torneio Rio-São Paulo diante do tradicional clube carioca, que estava invicto e jogava pelo empate para ser campeão. Era a primeira vez que se enfrentariam no maior estádio paulistano da época.

Além dos torcedores das duas equipes, muitos outros certamente foram ao Pacaembu para ver Pelé, já considerado o melhor jogador do planeta. Porém, o atacante santista que mais se destacou naquela partida, pela agilidade e inteligência, foi um menino vindo de Piracicaba, batizado Antônio Wilson Vieira Honório, apelidado Coutinho (a alcunha vem de Coto, Cotinho, pedacinho de gente, maneira carinhosa como era tratado por sua mãe).

Além de uma técnica impressionante, Coutinho marcou dois dos três gols santistas na vitória consagradora por 3 a 0. Pelé fez o outro. Todos no segundo tempo. O detalhe é que, nascido em 11 de junho de 1943, Coutinho ainda tinha 15 anos quando se tornou herói da decisão do primeiro dos cinco torneio Rio-São Paulo vencido pelo Santos. Faltavam 25 dias para fazer aniversário.

Santos 3 x 0 Vasco

Rodada final do Torneio Rio-São Paulo

Pacaembu, domingo, 17 de maio de 1959

Santos: Laércio, Ramiro, Getúlio e Mourão; Álvaro e Zito (Fioti); Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Vasco: Barbosa, Dário, Viana e Coronel; Laerte e Russo; Sabará, Robson, Zé Henrique (Cabrita), Rubens e Peniche (Osvaldo). Técnico: Gradim.

Gols: Coutinho aos 4 e aos 42 e Pelé aos 14 minutos do segundo tempo.

Público e Renda: 21 mil espectadores, Cr$ 905.695,00.

Foi o Rei que mandou…

Gabriel Pierin

Santos e Vasco se enfrentam nessa quinta-feira no Pacaembu. O estádio já foi palco de 11 confrontos, e o Santos se mantém invicto. São nove vitórias do Alvinegro Praiano e dois empates.

Pelo Campeonato Brasileiro, Santos e o clube cruzmaltino se enfrentaram 66 vezes. A disputa é equilibrada, com vantagem para o Santos: são 24 vitórias e 20 derrotas. Pelé é o artilheiro do Santos, com 9 gols.

As equipes já protagonizaram grandes disputas e títulos importantes. Em 1963, pelo Torneio Rio-São Paulo, um episódio ficou na memória do confronto. Em dia 16 de fevereiro daquele ano, o Santos arrancou um empate quando perdia por 2 a 0, no Maracanã, com Pelé marcando os dois gols do Peixe nos minutos finais da partida.

Naquele dia o Santos formou com Gylmar, Dalmo, Mauro e Zé Carlos (Tite); Calvet e Lima; Dorval, Mengálvio, Pagão (Toninho), Pelé e Pepe. O técnico era Luiz Alonso Perez, o Lula. Os dois gols do Rei inspiraram o jornalista Nélson Rodrigues, que escreveu mais uma de suas crônicas impagáveis no jornal O Globo:

A multidão parou. E o tento solitário de Pelé veio como um toque sobrenatural numa peleja decidida. Mas o Vasco continuava na frente. O Santos fizera o seu “goal” de honra e só. Pois bem – e continua a batalha. O time do Santos arquejava como um asmático em último grau. Era preciso impedir que Pelé tocasse na bola. Nos últimos segundos, há uma chance do Santos, Toninho enche o pé e fura. Estava salvo o Vasco. Não, não estava salvo. Falhou Toninho, mas Pelé apareceu. Não estava lá, mas vejam vocês – desabrochou na hora e no momento certo. Enfiou a bola lá dentro e com que graça, sortilégio, beleza e “goal” perfeito. Irretocável como um soneto antigo. E aí está porque nós o consideramos o maior jogador do mundo. Amigos, não há Santos e insisto: Há Pelé. Dizia-me um colega, ontem no Maracanã: “O crioulo teve sorte”. Exato. Mas a sorte pertence aos Pelés, aos Napoleões. A história deu a Bonaparte, de mão beijada, uma Revolução Francesa. E é claro que as potências misteriosas do destino carregam Pelé no colo. Alguém diria que para os dois “goals” Pelé pouco ou nada fez, pelo contrário: quem enfia nos três minutos de uma partida dois “goals” já fez tudo. E mesmo que não jogasse nada, amigos, só os pernas de pau, os cabeças de bagre precisam jogar bem. Um Pelé pode sentar em campo para ler gibi. Com um leve toque, marcou um “goal”, com um segundo toque imponderável, empatou”.

Um presente para a mãe do goleiro

Em sua edição de março de 1999 a revista Placar escreveu sobre o mesmo episódio narrado por Nélson Rodrigues em artigo com o título “Um presente para a mãe do zagueiro”:

A Versão: O Vasco vencia o Santos, no Maracanã, por 2 a 0. Os zagueiros Brito e Fontana infernizavam Pelé, perguntando um para o outro: “Cadê o Rei? Hoje o Rei não veio? Ele, então, empatou o jogo, marcou dois gols nos últimos minutos, Depois, entregou a bola a Fontana e disse: “Toma, leva para tua mãe. Diz que foi o Rei que mandou”.

O Fato: “Naquele dia, o Fontana e o Brito me encheram demais. Toda vez que a bola saía e eu ia buscar, um deles chutava mais longe, aproveitando que, naquela época, não havia tantos gandulas, depois, falavam: “É crioulo, essa não dá mais…”. Só que quando faltavam três minutos para o jogo terminar, fiz um gol, descontando para 2 a 1. Faltando dois minutos, fiz outro. Aí peguei a bola, dei para o Fontana e disse: “Tá vendo isso aqui? Leva para a sua mãe de presente”. Mas eu não falei que “foi o Rei que mandou”.

Estatísticas favoráveis

O jovem pesquisador Gabriel Santana nos informa que Santos e Vasco já se enfrentaram 120 vezes, com 41 vitórias santistas, 36 empates e 43 vitórias vascaínas. O Santos marcou 192 gols e sofreu 185.

Pelo Campeonato Brasileiro, o Santos tem quatro vitórias a mais (24 a 20), além de ter marcado mais gols (92 a 85). E só no Pacaembu, além de nunc ater perdido para o adversário, com nove vitórias e dois empates, tem um saldo de gols impressionantes, pois marcou 30 e só sofreu quatro gols.

Artilheiros santistas do confronto

1 – Pelé, 9 gols.

2 – Coutinho, 8 gols.

3 – Dorval e Toninho Guerreiro, 6 gols.

Primeiro confronto entre as equipes

21 de abril de 1927

Inauguração do estádio de São Januário

Vasco 3 x 5 Santos

Vasco: Nelson, Espanhol e Itália; Nesi, Claudionor e Badu; Pascoal, Torterolli, Baiano, Russinho e Negrito.

Santos: Tuffy, Bilu e Davi; Alfredo, Julio e Hugo; Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista.

Gols: Evangelista aos 11 e Negrito aos 45 minutos do primeiro tempo; Feitiço aos 15, Baiano aos 18, Omar aos 22, Araken aos 30, Pascoal aos 34 e Evangelista aos 39 minutos do segundo tempo.

Público: cerca de 35.000 pessoas.