Tudo vai bem quando acaba bem

Tudo vai bem quando acaba bem

Por Odir Cunha, do Centro de Memória

Um time que na Vila Belmiro se mostrava atrevido, insinuante, irresistível, mas fora de casa sofria de lapsos de confiança e, indefectivelmente, fazia seu torcedor sofrer – esse foi o Santos de Neymar, André, Robinho e Paulo Henrique Ganso na Copa Brasil de 2010, conquistada em um dia 4 de agosto como hoje.

Orientada por Dorival Junior, a ofensiva, mas irregular equipe santista, estreou na Copa do Brasil contra o então desconhecido Naviraiense, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Não fosse Marquinhos, que entrou no lugar de Maranhão e marcou aos 36 minutos do segundo tempo, o jogo não teria saído do zero.

Na partida de volta, os animados jogadores adversários foram conhecer o mar e os encantos de Santos antes de tentar uma surpresa na Vila Belmiro. Mas, em casa, o Santos era outro, como os visitantes descobriram amargamente. O primeiro tempo já terminou 6 a 0 e vieram mais quatro gols no segundo. A sonora goleada de 10 a 0 ganhou as manchetes e colocou o Santos como um dos favoritos ao título.

Os 4 a 0 sobre o Remo, em Belém, confirmaram os especialistas. Aquele Santos atropelaria todo mundo, como ficou mais uma vez provado no terceiro jogo, contra o Guarani, na Vila, quando o time de Campinas viu-se abalroado por inapeláveis 8 a 1. No jogo de volta, em Campinas, Dorival Junior escalou reservas e o Santos perdeu por 3 a 2, mas a vaga já estava garantida e o torcedor nem ligou.

Gangorra emocional

Mas a seguir, na primeira partida pelas quartas de final, contra o Atlético Mineiro, no Mineirão, a situação ficou nem complicada. Empurrado por 46.239 torcedores, ainda no primeiro tempo o Atlético, dirigido pelo matreiro Vanderlei Luxemburgo, chegou a 2 a 0, com dois gols de Diego Tardelli. Se o resultado prevalecesse, no jogo de volta bastaria marcar um gol na Vila e o Atlético obrigaria o Santos a marcar no mínimo quatro vezes para se classificar.

Porém, aos 44 minutos, Robinho penetrou pelo meio da defesa e bateu no canto do goleiro Aranha, para alívio dos corações alvinegros praianos. Mas a tranquilidade durou pouco. Mal começou o segundo tempo e Tardelli marcou novamente. Com um a vitória por 3 a 1, o Atlético poderia perder por um gol na Vila.

Felizmente, aos 37 minutos, após troca de passes com Zé Eduardo, Ganso cruzou na medida para a cabeçada de Edu Dracena, reduzindo a derrota para 3 a 2. Na semana seguinte, sem dar sustos, o Santos venceu, no Urbano Caldeira, por 3 a 1, e seguiu em frente.

Cerca de 39 mil pessoas foram ao Estádio Olímpico ver o primeiro jogo da semifinal. Jogar no campo do Grêmio é sempre difícil, mas os santistas ficaram mais relaxados quando André marcou aos 15 e aos 20 minutos. Enquanto os gols eram comemorados com as tradicionais dancinhas, ficava a impressão de que a vaga para a final seria confirmada sem grandes problemas na Vila Belmiro.

O primeiro tempo terminou 2 a 0 e no segundo o Santos entrou mais recuado, tentando segurar a boa vantagem. Como quase sempre, isso deu muito errado. Borges diminuiu aos 12 e empatou aos 18, Jonas desempatou aos 22 e Borges marcou o quatro aos 30. Faltavam 15 minutos, fora os acréscimos, e o Santos, atordoado , via o estádio adversário em festa, enquanto um locutor local perguntava por que Neymar, André & Cia não dançavam o “Elimination”?

Mais um gol do Grêmio e ficaria muito difícil conseguir a vaga para a final. Então, o Santos foi à frente e aos 37 minutos, após outro passe genial de Ganso, Robinho entrou por trás da zaga, matou no peito e estufou as redes adversárias. Na semana seguinte, em uma exibição lapidar, o Alvinegro venceu por 3 a 1, na Vila Belmiro, com golaços de Ganso, Robinho e Wesley.

Na primeira partida da final, em 27 de julho, na Vila Belmiro, contra o Vitória, Neymar marcou aos 14 minutos e a partir daí o Santos perdeu uma infinidade de gols. O próprio Neymar desperdiçou um pênalti com a maldita cavadinha. Só no final do jogo, aos 38 minutos, é que Marquinhos resolveu bater a gol uma falta que era para ser cruzada na área, e ampliou para 2 a 0. O resultado permitia que o Santos fosse campeão em Salvador mesmo com uma derrota por um gol de diferença.

Finalmente, na noite de 4 de agosto de 2010, uma quarta-feira em que o estádio Barradão recebeu 35 mil pessoas, o Santos parecia pronto para ser campeão da Copa do Brasil pela primeira vez. Após segurar o jogo durante todo o primeiro tempo, o time foi à frente e aos 44 minutos Edu Dracena cabeceou um cruzamento preciso de Neymar, em um gol comemorado como se fosse o próprio título. O Santos só perderia a taça se o Vitória fizesse quatro gols.

A boa vantagem fez o Santos começar o segundo tempo como se o torneio já estivesse decidido, mas Wallace marcou aos 11 minutos, Junior marcou aos 32 e aquele conhecido sentimento de desespero voltou a açoitar os corações alvinegros. O Vitória apertava, a defesa santista se mostrava insegura e o relógio demorava a andar…

Finalmente, aos 49 minutos, o árbitro Carlos Eugênio Simon apontou para o centro do campo e o Santos pôde comemorar o seu primeiro – e até aqui único – título da Copa do Brasil. Depois de tantos sobressaltos, tudo acabava bem. Aos 18 anos, o emergente ídolo Neymar era o artilheiro da Copa do Brasil/2010, com 11 gols. O ataque santista, com 39 gols, média de 3,55 gols por jogo, estabelecia um recorde para a competição.

Santos campeão: Rafael, Pará, Edu Dracena, Durval e Alex Sandro; Arouca, Wesley e Paulo Henrique Ganso; Neymar (Marcel), André (Marquinhos) e Robinho (Rodriguinho). Técnico: Dorival Junior.