Santos e Bahia já decidiram o título brasileiro na Vila

Santos e Bahia já decidiram o título brasileiro na Vila

Por Odir Cunha, do Centro de Memória
Estatísticas por Guilherme Guarche

Há 60 anos Santos e Bahia – que voltam a se enfrentar nesta quinta-feira, às 19h15, na Vila Belmiro – fazem um dos clássicos mais tradicionais do futebol brasileiro. De 1959 a 1963 eles decidiram três das cinco primeiras edições da Taça Brasil, competição que revelava o campeão do país na época. Em 1959 o jogo do título foi no Maracanã, com vitória do Bahia; em 1963 o Santos levantou o troféu em plena Fonte Nova e em 1961 a decisão ficou para a Vila Belmiro. Que tal recordar a única vez em que o campeão brasileiro comemorou a conquista no Urbano Caldeira?

O primeiro jogo da final de 1961, em 22 de dezembro daquele ano, uma sexta-feira, levou 41.893 torcedores à Fonte Nova. O Bahia tinha sido o primeiro campeão brasileiro, em 1959, e sua torcida acreditava em nova façanha diante do Santos, já considerado o melhor time do mundo.

O Alvinegro da Vila tinha um esquadrão, aquela noite escalado pelo técnico Lula com Laércio, Lima, Mauro e Dalmo; Calvet e Zito; Dorval, Tite (depois Mengálvio), Coutinho, Pelé e Pepe. Para a arbitragem foi escolhido Olten Ayres de Abreu, considerado o melhor do país.

Mas o campeão do Norte/Nordeste, também muito forte, ostentava a melhor equipe de sua história, com Nadinho, Hélio, Henrique e Florisvaldo; Vicente e Pinguela (Antoninho); Nilsinho, Alencar, Didico, Mário e Marito. O técnico era Armando Simões.

Ofensivo, como sempre, o Santos tomou a iniciativa e marcou logo aos dois minutos de jogo, com Coutinho. Mas o Bahia conseguiu neutralizar as jogadas santistas e o primeiro tempo terminou assim. No segundo, Mário empatou aos quatro minutos e ficou nisso. Com o empate, quem vencesse o jogo de volta, na Vila Belmiro, seria campeão brasileiro. Um novo empate forçaria a disputa de uma terceira partida.

Na noite de quarta-feira, 27 de dezembro, uma Vila Belmiro em festa recebeu 18.662 pessoas para ver a decisão. Baymonilso Lisboa foi o árbitro do grande jogo. O Santos entrou em campo com o mesmo time que iniciara a partida em Salvador. A única substituição seria a de Silas por Laércio, ao final da partida. O Bahia jogaria igual, substituindo apenas Pinguela por Antoninho, como ocorrera na primeira partida.

Pelé – Pelé – Pelé – Coutinho – Coutinho

O Santos começou pressionando, mas o gol não saía. Os atacantes santistas eram travados justo na hora do chute. A torcida teve um momento de apreensão, relembrando o primeiro jogo da final da Taça Brasil de 1959, quando o Alvinegro foi derrotado pelo Bahia, na mesmo Vila Belmiro, por 3 a 2.

Aos 24 minutos, porém, Pepe bateu uma falta da ponta esquerda, com força. Coutinho, com o lado externo do pé direito, tocou para Pelé, à sua esquerda, na marca do pênalti. Pelé ergueu um pouco o pé direito para dominar a bola e rapidamente, antes de ser bloqueado pela zaga, chutou quando a bola tocava o gramado. Ela entrou no canto esquerdo de Nadinho. Estava aberta a porteira.

Naqueles tempos em que os times jogavam com cinco atacantes, obviamente o Bahia tentou tomar a iniciativa e o Santos deu uma ligeira recuada. Mas Pelé, como em toda partida importante, estava ligado a cada lance. Aos 30 minutos o Bahia avançava, trocando passes desde a sua defesa, quando Pelé, a três passos do meio de campo, interceptou a bola e arrancou em direção à meta de Nadinho.

Havia um adversário à direita e um à esquerda, mas Pelé não esperou a chegada de um companheiro, nem reduziu o ritmo. Quando tentaram barrar seu caminho, passou pelo que estava à direita e depois pelo da esquerda e seguiu, rápido. Um outro zagueiro surgiu à sua frente, decidido, mas Pelé evitou o choque jogando a bola de um lado e saindo do outro, na clássica meia-lua. Ainda na corrida entrou na área e bateu forte, cruzado, para fazer 2 a 0.

O Bahia nem tinha assimilado o golpe e, um minuto depois, Pelé partia novamente do meio campo com a bola dominada. Tocou para Coutinho, à sua esquerda, e se colocou à frente para receber o passe. Mas dessa vez Coutinho não devolveu. Pegou um chute forte, de esquerda, da entrada da área. Nadinho rebateu e Pelé, que acompanhava a jogada, acelerou para chegar antes do goleiro e bater, de esquerda, fazendo 3 a 0. Desequilibrado, ELE caiu sobre os fotógrafos, que antes ficavam atrás do gol, mas se levantou e veio, aos saltos, receber o abraço de Pepe e dos outros companheiros.

Dois minutos depois, o atordoado Bahia tinha a bola no meio de campo quando Dorval deu o combate e a bola sobrou para Zito, que imediatamente lançou Pelé, que tocou de primeira para Coutinho, à sua direita. Este carregou com o pé direito, na entrada da área driblou um marcador para a esquerda e bateu de canhota, forte, antes da chegada da marcação. 4 a 0. Em menos de 10 minutos o título brasileiro de 1961 estava decidido.

A partir daí, saciado, o Santos diminuiu o ritmo, mas mesmo assim Coutinho fez o quinto gol aos 15 minutos do segundo tempo, ao ser lançado, invadir a área perseguido por Henrique, tirar o marcador do lance com um jogo de ombro e, na saída de Nadinho, colocar no canto. A verdade é que aos 18 anos e antes das cirurgias nos joelhos, Coutinho era quase tão bom quanto Pelé.

Todos já esperavam o fim da partida quando, aos 44 minutos, Alencar foi lançado e, perseguido por Olavo, se enroscou com a bola e caiu na área. Senhor Baymonilso marcou pênalti, que Florisvaldo converteu. A essa altura Silas substituía Laércio na meta do Santos.

Essa foi a única oportunidade em que o Santos comemorou um título brasileiro em seu campo. Em quatro delas deu a volta olímpica no Maracanã, nas outras três na Fonte Nova, no Morumbi e, em 2004, no Teixeirão, em São José do Rio Preto.

Pela história, Santos é favorito

Santos e Bahia já se enfrentaram 63 vezes, com 31 vitórias santistas, 13 empates e 19 derrotas; 128 gols a favor do Alvinegro Praiano e 83 contra. Isso quer dizer, ao menos historicamente, que a cada dois jogos o Santos, em média, vence um.

Se forem isolados apenas os 47 duelos pelo Campeonato Brasileiro, o Santos obteve 23 vitórias, nove empates e 15 derrotas, com 90 gols pró e 54 contra. Isso quer dizer, grosso modo, que a incidência de uma vitória a cada dois jogos continua.

A situação é ainda mais favorável ao Santos no caso dos jogos pelo Brasileiro jogados apenas na Vila Belmiro, pois em 16 embates o Alvinegro Praiano venceu 10, empatou um e perdeu cinco; marcou 34 gols e sofreu 17. Ou seja, o Santos venceu 2/3 dos jogos contra o rival, ou 62,4%.

Artilheiros santistas do confronto

1 – Pelé, 13 gols.
2 – Coutinho, 6 gols.
3 – Toninho Guerreiro e Bruno Henrique, 4 gols.

Raul resolveu a primeira partida, há 83 anos

O primeiro jogo entre Santos e Bahia foi um amistoso, disputado em 2 de abril de 1936, uma quinta-feira, no Estádio da Graça, Salvador, com arbitragem de Juvêncio Magalhães.

Ainda com o time campeão paulista de 1935, o Santos jogou com Cyro, Neves e Agostinho; Dino, Ferreira e Jango; Sacy, Moran, Raul, Araken e Antenor. Seu técnico era Virgílio Pinto de Oliveira, o Bilu.

O Esporte Clube Bahia formou com Hamilton, Bubu e Tarzan; Nouca, Neizinho e Vanderlei; Oto, Armandinho (Betinho), Romeu, Tintas e Moela.
Em partida equilibrada, o Santos venceu por 2 a 1, com dois gols do centroavante Raul. O meia Armandinho fez o único gol do Bahia.