O Santos de Pelé conquista o Troféu Teresa Herrera

Santos 1 x 0 Internazionale: o título que consagrou o único supercampeão mundial

Gabriel Pierin, do Centro de Memória

Na noite de 24 de junho de 1969, uma quarta-feira, o Santos Futebol Clube escreveu mais um capítulo histórico de sua trajetória. Diante de 44.774 espectadores no estádio San Siro, em Milão, o Peixe derrotou a Internazionale por 1 a 0 e conquistou a Recopa Mundial de 1968, tornando-se o primeiro e único supercampeão mundial do futebol.

A conquista teve início no ano anterior, com a disputa da Recopa Sul-Americana de 1968. O torneio funcionava como fase classificatória para a decisão da Recopa Mundial e reunia os únicos campeões sul-americanos da Taça Intercontinental — denominação da competição que definia o campeão mundial de clubes da época. Participaram da disputa o Santos, campeão em 1962 e 1963, o Peñarol, vencedor em 1961 e 1966, e o Racing, campeão em 1967.

Realizada em sistema de pontos corridos, a competição premiava a equipe que somasse mais pontos. O Santos confirmou sua superioridade ao conquistar seis pontos, resultado de duas vitórias sobre o Racing e uma diante do Peñarol, encerrando a fase sul-americana na liderança isolada.

Classificado para a decisão mundial, o clube da Vila Belmiro viajou à Itália para enfrentar a Internazionale, bicampeã mundial em 1964 e 1965. O Real Madrid, campeão mundial de 1960, também tinha direito de participar da disputa, mas desistiu do torneio.

O confronto colocou frente a frente duas das maiores forças do futebol mundial. De um lado, o Santos de Pelé; do outro, a Internazionale liderada por Mazzola. A arbitragem ficou sob responsabilidade do espanhol Ortiz de Mendíbil.

A equipe italiana iniciou a partida impondo seu ritmo. Durante boa parte do primeiro tempo, a Inter controlou as ações e criou as melhores oportunidades. Bem marcado por Bedin, Pelé encontrou dificuldades para participar do jogo, enquanto o ataque santista pouco produzia. A melhor chance brasileira na etapa inicial surgiu em um chute de longa distância de Edu.

Explorando o nervosismo santista, os italianos pressionaram constantemente. Aos 40 minutos, Rildo cometeu falta em Jair da Costa. Na cobrança de Corso, Laércio — substituindo o lesionado Cláudio — realizou importante defesa. Pouco depois, Clodoaldo evitou novo perigo ao bloquear um cruzamento que levava grande ameaça à área brasileira.

Se a Inter foi superior ofensivamente, o Santos encontrou em sua defesa a sustentação necessária para permanecer vivo na partida. O destaque do setor foi o zagueiro Djalma Dias, que realizou excelente atuação e ajudou a neutralizar as investidas italianas.

O cenário mudou após o intervalo. Mais organizado e confiante, o Santos voltou melhor para o segundo tempo. Logo nos primeiros minutos, Pelé passou por dois adversários e finalizou com força da entrada da área. O goleiro Bordon conseguiu evitar o gol, contando ainda com a ajuda de Burgnich para afastar o perigo.

Santos FC campeão da Recopa Mundial, em 1969

A partir daquele momento, o trio ofensivo formado por Edu, Toninho e Abel passou a criar dificuldades para a defesa italiana. Aos nove minutos, Edu protagonizou uma jogada espetacular ao driblar três marcadores e finalizar com violência, quase abrindo o placar.

O gol santista surgiu um minuto depois. Após cobrança de escanteio de Abel, a jogada teve sequência com Rildo, Edu e Abel, até chegar a Negreiros. O meia tentou aplicar um chapéu em Cella e acabou sendo derrubado. O árbitro marcou falta.

Pelé posicionou a bola com tranquilidade e cobrou com força. Bordon não conseguiu fazer a defesa completa e o rebote sobrou para Toninho, que empurrou para as redes, decretando o 1 a 0 para o Santos e silenciando o San Siro.

Com a vantagem no placar, o time brasileiro assumiu o controle da partida. Demonstrando maturidade e experiência, administrou o resultado até o apito final. O árbitro ainda deixou de assinalar um pênalti claro sofrido por Pelé, mas o lance não impediu a confirmação da vitória santista.

O triunfo representou o auge da hegemonia construída pelo Santos ao longo da década de 1960. Sob o comando de Antoninho, a equipe atuou com Cláudio (Laércio), Carlos Alberto, Ramos Delgado, Djalma Dias e Rildo; Clodoaldo e Negreiros; Toninho, Edu, Pelé e Abel.
A Internazionale, dirigida por Maino Neri, entrou em campo com Bordon, Burgnich, Guarnieri, Cella e Poli; Bedin e Mazzola; Jair da Costa, Domenghini, Corso e Vastola.

A consagração definitiva
As partidas decisivas da Recopa Mundial estavam inicialmente previstas para dezembro de 1968, mas acabaram transferidas para 1969. Embora estivesse programado um segundo confronto, que deveria ocorrer no Brasil, a Internazionale recusou-se a realizá-lo. O clube italiano alegou dificuldades de datas e sucessivos problemas de calendário, mesmo após o Santos oferecer alternativas para a realização da partida, incluindo a possibilidade de disputá-la em Nápoles.
 
Segundo informações divulgadas pela imprensa italiana na época, o verdadeiro motivo seria o receio de uma nova derrota diante da equipe brasileira. Após perder em seu próprio estádio, a Inter acreditava ter poucas chances de reverter a situação em uma segunda partida, fosse ela realizada na Itália ou no Brasil.
 
Como a edição de 1969 da Recopa teve apenas a fase sul-americana — vencida pelo Peñarol — e a competição nunca mais foi disputada, o título conquistado pelo Santos permaneceu único na história. Dessa forma, o clube santista tornou-se não apenas campeão, mas o único supercampeão mundial do futebol, uma distinção exclusiva que reforça a dimensão histórica da geração liderada por Pelé.
Acessar o conteúdo