Sansão 106 no Alçapão

Sansão 106 no Alçapão

Por: Odir Cunha

Rimar no título não é recomendável, mas isso é só pra mode a gente guardar melhor a informação. Sim, o Sansão deste domingo é o de número 106 da história de Santos e São Paulo no estádio Urbano Caldeira, dos quais o Santos venceu 47, empatou 25 e perdeu 33, marcando 179 gols e sofrendo 154. Mas vamos começar nosso artigo falando de um jogo em particular, um dos mais importantes do confronto.

O octogonal decisivo do Campeonato Brasileiro de 2002 iria começar e no Morumbi havia muita confiança para a primeira partida, contra o Santos, na Vila Belmiro, pois o São Paulo tinha sido o líder da fase de grupos, com 52 pontos ganhos e 16 vitórias, bem mais do que os 39 pontos e as 11 vitórias do Santos, que com um time de garotos tinha se classificado na bacia das almas devido a derrotas inesperadas deus concorrentes.

Mas na Vila, tomada por um público de 18.627 pessoas, o Santos jogou solto, ofensivo e pressionou o time que tinha Kaká, Rogério Ceni e Luís Fabiano entre seus destaques. Alberto abriu o marcador aos 30 minutos, Kaká empatou aos 45 do primeiro tempo, mas na segunda etapa os Meninos tomaram conta. Robinho fez um golaço aos seis minutos, Diego marcou outro aos 21 e o Santos iniciou ali uma caminhada que o levaria ao seu sétimo título brasileiro.

O inventor do Sansão

Foi o jornalista Thomaz Mazzoni, de A Gazeta Esportiva, um dos autores do melhor texto do jornalismo esportivo paulista, quem em 1956 batizou o clássico Santos e São Paulo de Sansão, utilizando as primeiras sílabas dos nomes dos dois times e ao mesmo tempo lembrando a força do confronto.

Ao todo, 306 jogos

Como destaca Guilherme Guarche, do Centro de Memória do Santos FC, desde 1930, quando empataram em 2 a 2 pelo Campeonato Paulista, na Vila Belmiro, o Santos já enfrentou a equipe do São Paulo em 306 oportunidades, somando quatro jogos da fase amadora do futebol de São Paulo (a primeira partida no regime profissional, no Brasil, foi um Sansão jogado em 1933, na Vila Belmiro).

Dessas 306 partidas o Santos venceu 103, empatou 71 e perdeu 132, marcando 440 gols e sofrendo 509.  Só em jogos pelo Brasileiro o equilíbrio prevalece, com 25 vitórias santistas, 13 empates e 28 derrotas, 85 gols marcados e 83 sofridos.

Porém, quando se chega aos jogos pelo Brasileiro disputados apenas na Vila Belmiro, a vantagem do Alvinegro Praiano é flagrante, já que em 23 jogos são 12 vitórias, cinco empates e seis derrotas, com 35 gols marcados e 25 sofridos.

As equipes já se defrontaram nas competições

Campeonato Paulista, 176 partidas.

Amistosos, 20.

Torneio Rio – São Paulo, 18.

Taça Cidade de São Paulo, 4.

Copa dos Campeões Mundiais, 4.

Taça Sansão, Torneio Extra Rio-São Paulo, Copa do Brasil, Copa Sul-Americana, Super Copa Libertadores e Torneio dos Campeões Brasileiros (2) – Trofeu Thereza Herrera, Taça Charles Miller, Taça Cidade de Santos, Torneio Nunes Freire, Torneio Gov. do Estado e Torneio RGP fase nacional, 1 partida.

Principais artilheiros santistas do confronto

1 – Pelé, 31 gols.

2 – Pepe e Coutinho, 13.

4 – Toninho Guerreiro, 10.

5 – Odair e Neymar, 9.

7 – Ricardo Oliveira e Juary, 8.

9 – Vasconcelos e Edu, 7.

11 – Raul Cabral Guedes, Serginho Chulapa, Tite e Dodô, 6.

No coração da capital

Guilherme Gomez Guarche

Para os torcedores do Santos aquele início de 1957 foi simplesmente extraordinário. Eles viveram momentos de uma felicidade eterna, já que o time de Vila Belmiro conquistava, no terceiro dia daquele ano, o seu primeiro bicampeonato paulista, ao vencer, no estádio do Pacaembu, o clube que até o ano anterior era chamado de “Tricolor do Canindé”, pelo placar de 4 a 2.

Um  público de 51.600 espectadores, a grande maioria torcedores são-paulinos, compareceu àquela partida final que decidia qual agremiação seria a campeã do ano anterior, já que as duas equipes chegaram empatadas em número de pontos na última rodada do Campeonato Paulista de 1956. A Federação Paulista de Futebol ignorou que, mesmo sendo o Pacaembu localizado na capital do estado, ficava também no coração da cidade em que se localizava um dos finalistas, e determinou que ali seria disputada a finalíssima do campeonato.

O Peixe subiu a serra e não se fez de vítima. Jogou como um time vencedor, buscando a vitória a todo custo, e foi o que aconteceu naquela quinta-feira inesquecível para os “peixeiros”, que conquistaram o terceiro título de campeão estadual.

Mas esse jogo de desempate até hoje provoca dúvidas na imprensa e nos adeptos do Alvinegro, pois nessa partida o técnico Lula, após ordens dadas pela diretoria do clube, na última hora retirou da equipe a zaga titular composta por Hélvio e Ivan, sobre os quais havia suspeita de estarem na “gaveta”, e colocou os reservas Wilson e Feijó.

O São Paulo foi para os vestiários vencendo por 2 a 1, com Zezinho marcando os dois gols do time da “Terra da Garoa”, e Feijó para o time da “Terra da Caridade e da Liberdade”. Na etapa complementar, o então Campeão Paulista de 1955 mostrou garra e muita luta para superar o adversário, com o ponta Tite marcando o segundo e depois Del Vecchio encerrando a contagem com mais dois gols que deram o ambicionado título ao time comandado pelo técnico Luiz Alonso Perez, o Lula ,que mandou a campo Manga, Wilson e Feijó; Ramiro, Formiga e Zito; Tite, Jair Rosa Pinto, Pagão, Del Vecchio e Pepe.

A Federação Paulista, reconhecendo a superioridade do Alvinegro Praiano, e por este ser o representante de uma cidade caiçara, presenteou-o com um bonito e artístico troféu de bronze com um grande peixe segurando uma bola, vistoso troféu que está hoje nas dependências do Memorial das Conquistas da Vila Belmiro, onde recepciona os visitantes logo na entrada do museu santista.

Vale lembrar que o então jovem Pelé, mesmo já tendo jogado duas partidas na equipe principal, em 1956, não disputou nenhuma partida no certame paulista que deu o bicampeonato ao Santos.

Os “Peixeiros” de alma lavada: Vitória no Pacaembu vale mais

Trecho extraído da Revista Manchete Esportiva – edição nº 60 de 12/01/1957

Todos choravam, todos riam e Jair, agarrado ao treinador, gritava ao seu ouvido: “Obrigado, miserável! Obrigado meu amigo! Obrigado!” Um “chute” na “escrita” dos 20 anos – Beijos, lágrimas e risos. Lá fora, no campo, Athié perdia-se em discursos diante de microfones de estações de rádio e TV. Suava, esbravejava, gritava vivas ao Santos, fazia um figuraço.

Lá dentro, o carnaval generalizava-se. Um verdadeiro delírio de uma massa torcedora, surgida sabe Deus como, dentro do reservado dos jogadores. Estes, choravam e riam ao mesmo tempo. Abraçavam-se, beijavam-se, faziam mil e uma coisas como que por instinto. Era a continuação do “show” iniciado no campo, onde Manga beijou o chão, abençoando-o.

Jair, agarrado a Lula, grudado em seu pescoço, vibrava como ninguém o julgava capaz, gritando ao ouvido do técnico: “Obrigado, homem! Obrigado, desgraçado! Obrigado, meu amigo! Muito Obrigado!”. E veio Formiga (o que mais chorou), gritando por seu turno:

– “E foi aqui em São Paulo, que ganhamos o bicampeonato!” Mais alegre ainda:

– “Acabou-se! Acabou-se!”. Depois, vinda sabe lá de onde, uma voz esganiçada:

– “Adeus para a história de título de 20 em 20 anos! Agora é um campeonato por ano! Vamos sair para o tri! A torcida já se acostumou!” Tudo isso acontecia e Athié Jorge Coury, junto a Modesto Roma, continuava o seu interminável e eufórico falatório dentro do campo.

Quando o delírio tornou-se menos volumoso, quando os ânimos tornaram-se menos exaltados, conseguimos tirar o técnico Lula do meio da massa torcedora. Veio todo amarrotado, camisa rasgada, molhado de suor dos pés à cabeça e confessando-se com os nervos em frangalhos. Respondeu apenas a uma pergunta, dizendo:

– Quando marcamos o segundo empate, disse para mim mesmo que já éramos campeões. O time estava bem preparado e mais que em condições de vencer. Não tive dúvidas e fiquei tranquilo. Deixei a coisa correr, certo de que tudo correria conforme havíamos previsto.”