Ramiro, um valente

Ramiro, um valente

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória

O versátil e aguerrido Ramiro Rodrigues Valente nasceu em 19 de fevereiro de 1933, um domingo, na capital paulista, e iniciou sua trajetória no futebol em 1952, jogando ao lado de seu irmão, Álvaro José, na equipe do Jabaquara AC, um time da colônia espanhola na Baixada Santista.

Do Jabaquara, Álvaro veio para o Santos, ao contrário de Ramiro, que preferiu jogar nos aspirantes do Fluminense, no Rio de Janeiro, lá ficando até o final de 1954. No começo de 1955 foi contratado pelo Santos,  reencontrando seu irmão, Álvaro, com quem era muito parecido fisicamente. Ramiro veio para jogar na meia direita, mas uma emergência faria o técnico Lula descobrir outras funções para ele.

O episódio ocorreu na segunda rodada do Campeonato Paulista de 1955, domingo, 7 de agosto, quando os 6.546 espectadores na Vila Belmiro sofriam ao ver o Santos, com um jogador a menos, perder para a Ponte Preta por 3 a 1. Sem muitas opções, Lula deslocou Ramiro do meio campo para a lateral, cobrindo a vaga de Sarno, que fora expulso. Com a nova formação, o time cresceu e, em uma reação alucinante, virou o marcador para 6 a 3, em uma vitória que embalou a equipe rumo ao título daquele ano.

Ramiro já jogava no Santos há dois meses e meio. Estreou em 19 de maio de 1955, quinta-feira, na Vila Belmiro, em um amistoso vencido por 6 a 2 contra o Catanduva. O time jogou com Barbosinha (Manga), Hélvio (Wilson) e Sarno (Pascoal); Feijó, Ivan e Urubatão; Miltinho (Carlinhos), Ramiro (Leal/Fernando), Hugo (Del Vecchio), Vasconcelos (Raimundinho) e Pepe.

Entretanto, só mesmo em sua décima partida pelo clube, a da heroica virada sobre a Ponte, é que chamou a atenção de Lula. O técnico percebeu que aquele jovem de 22 anos, porte altivo de 1,81m, podia ser utilizado, com a mesma eficiência, como beque central, lateral e volante.

Tratava-se de um jogador que se adaptava facilmente a várias posições, era um bom marcador e também podia tocar rápido nas saídas para o ataque. Essa versatilidade ajudava Lula a armar seus esquemas. A presença de Ramiro foi determinante para a conquista do título estadual de 1955 e também ajudaria o Santos a ser campeão paulista em 1956 e 1958 e a ganhar o Troféu Teresa Herrera e o Torneio Rio-São Paulo, ambos em 1959.

Antes de deixar a Vila Belmiro, em 1959, Ramiro, que tinha o apelido de Draga, construiu um currículo de respeito. Jogou 248 partidas pelo Santos, das quais 106 na posição de lateral-direito, 92 como volante, 40 como beque central e 10 como meia-direita. Marcou dois gols pelo Alvinegro Praiano.

Pela Seleção Brasileira Ramiro jogou 11 partidas nos anos de 1955 e 1956, sendo um dos destaques do Campeonato Sul-americano de 1956, no Uruguai. Pela Seleção Paulista foi campeão brasileiro em 1956.

Mudança para a Espanha

Durante a primeira excursão do Peixe à Europa, em 1959, o futebol dos irmãos Valente chamou a atenção os dirigentes do Club Atlético de Madrid. Contratados em definitivo, Ramiro e Álvaro defenderam os “Colchoneros” na ingrata missão de fazer frente ao poderoso Real Madrid, na época um dos melhores times do mundo.

Ramiro ficou na Espanha até o final da temporada de 1965, quando encerrou a carreira. De volta ao Brasil, treinou o Santos em 1991 e em 32 partidas obteve 10 vitórias, 15 empates e sete derrotas, numa fase em que o time santista não vivia um bom momento e não ganhava títulos desde o Paulista de 1984.

Álvaro, que jogava como meia de armação, permaneceu no velho continente por mais dois anos. Os irmãos Valente foram separados definitivamente em 21 de setembro de 1991, quando Álvaro faleceu em decorrência de complicações da diabetes.

Depois de ter residido durante anos na cidade do Rio de Janeiro, onde trabalhava como construtor imobiliário e era também o representante oficial do Santos no Estado, por problemas de saúde Ramiro mudou-se em agosto de 2017 para a região do Veneto, no Norte da Itália, onde mora na pequena e calma cidade de Vicenza. Vive ao lado de sua filha Ana Maria, nascida na Espanha quando seu pai jogava no Atlético de Madrid, e também da neta Alessandra e do bisneto Felipe.

No Brasil, ficou a irmã de Ramiro, dona Preciosa, de 90 anos, que vive no Guarujá, cidade em que a família morou por muitos anos e onde Álvaro foi proprietário do Restaurante Capri Nova. Dona Margarida, a matriarca dos Valente, morreu em 2015.

Ramiro Valente, de 87 anos é um dos três jogadores mais velhos que vestiram a sagrada camisa santista. Além dele, Mourão, que em 2020 também completará 87 anos, e Lanzudo, que fez 90 anos no dia 1º de fevereiro, são os jogadores de mais idade que defenderam o Glorioso Alvinegro Praiano.