Quando éramos alunos

Quando éramos alunos

Por Odir Cunha, do Centro de Memória

Antes de ser mestre, é preciso ser aluno. Nosso Santos aprendeu essa dura lição há 103 anos, em 19 de janeiro de 1917, no seu primeiro confronto internacional. Jogado na tarde de uma sexta-feira, na Vila Belmiro, o duelo reuniu o intrépido Alvinegro Praiano, então um clube com apenas cinco anos de vida, e o Dublin Football Club, de Montevidéu, que chegou ao Brasil com fama de esquadrão.

Naqueles tempos, como se sabe, os uruguaios eram considerados os melhores praticantes de futebol na América do Sul. Fundado em 1906, o Dublin vencera a segunda divisão do Uruguai em 1915 e desde então se colocava entre os mais bem classificados do campeonato nacional. Fora quarto colocado em 1908, 1911 e terminaria novamente nessa posição em 1918.

Nosso Santos, ainda inexperiente, tinha voltado ao Campeonato Paulista em 1916 – quando foi o quinto colocado em sete participantes – depois de abandonar a competição em 1913 e ausentar-se nas edições de 1914 e 1915. De qualquer forma, o jornal Correio Paulistano, da capital, previa um jogo “movimentado e brilhante” na Vila Belmiro.

A verdade é que os uruguaios tinham surrado todo mundo no Rio de Janeiro e vinham de uma golear por 5 a 1 a Seleção Paulista. Em sete jogos no Brasil só tinham perdido para o Paulistano, e por apertados 2 a 1. No Rio, venceram duas vezes a Seleção Carioca, empataram com a Seleção Brasileira e golearam o Botafogo por 5 a 1 e o América por 4 a 1. Mas o Correio Paulistano acreditava, ou torcia, para uma boa performance santista:

É grande o interesse com que se espera esse jogo. Sabe-se que o team do club santista é bem organizado, dispõe de optimos elementos e, sobretudo, de muito training, em virtude das condições de seu ground extenso e não gramado. A disputa vai ser, portanto, movimentada e brilhante. O seu resultado poderá talvez tornar mais clara a posição de São Paulo em face dos nossos visitantes.

Bem que o Santos tentou vingar o futebol bandeirante. No primeiro tempo, com campo seco, o Peixe chegou a fazer 2 a 0, com Haroldo Pires Domingues e Ary Patusca. Mas o Dublin empatou ainda na primeira etapa, e na segunda, embaixo da chuva que tornou o campo escorregadio, fez mais quatro gols, fechando o placar com uma goleada de 6 a 2.

Como o navio dos uruguaios atrasou, o Santos pediu uma revanche, para o domingo, e dois dias depois voltaram a se enfrentar, com nova vitória do Dublin, dessa vez por 3 a 1. Retornaram os uruguaios para sua terra de barriga cheia e ego inflado. Em Santos foram tratados como reis.

Quando superamos os mestres

No ano seguinte, o Santos voltou a receber um time uruguaio na Vila Belmiro, e perdeu novamente, mas de pouco. Em 5 de fevereiro de 1918 jogou contra o combinado Nacional/Wanderes e foi derrotado por 2 a 1. No dia 27 do mesmo mês o Dublin venceu a Seleção Brasileira, no Rio de Janeiro, por 2 a 1. Vivia-se uma era de predomínio uruguaio, reforçada pelo bicampeonato do futebol nas Olimpíadas de 1924 e 1928, feito o que deu à Seleção daquele país o epíteto de Celeste Olímpica.

Mas o tempo passou. E em 27 de junho de 1929, quando enfrentou o temido uruguaio Rampla Juniors, na Vila Belmiro, o Santos era um time mais experiente, quase imbatível em sua casa, que sapecou 5 a 0 nos visitantes. O mesmo placar foi destinado, dois anos depois, ao Sud América, outro time uruguaio de respeito.

Em 23 de abril de 1931 adentrou a Vila Belmiro o espetacular Bella Vista, base da Seleção Uruguaia campeã mundial dez meses antes. Bem, não foi possível enfiar outro 5 a 0, mas o 2 a 1 já foi saudado como a maior vitória santista até ali.

Passaram-se 25 anos até que o Santos enfrentasse outro time uruguaio. Em 22 de março de 1956, pelo Torneio Internacional da Federação Paulista de Futebol, o grande Nacional pisou pela primeira vez no Urbano Caldeira. E como o Rampla Juniors e o Sud América, levou mais um 5 a 0.

Quiseram ainda os deuses do futebol que em sua primeira decisão de Copa Libertadores, em 1962, o Santos se defrontasse com o Peñarol, naquele momento campeão mundial e bicampeão da Libertadores. Como se sabe, depois de vencer em Montevidéo por 2 a 1 e perder na Vila Belmiro por 3 a 2, em uma decisão superpolêmica da arbitragem, o Alvinegro Praiano venceu por 3 a 0 em Buenos Aires e levou a taça. O mesmo Peñarol, aliás, perdeu novamente para o Santos na final da Libertadores de 2011.

Enfim, se os duelos com os times uruguaios não começaram muito bem para o Santos, acabaram se tornando altamente gratificantes para o resiliente Alvinegro Praiano. Quanto ao orgulhoso Dublin, nosso primeiro algoz em jogos internacionais, desistiu do profissionalismo e se tornou uma equipe amadora de Montevidéu.