Naquele memorável domingo de 21 de junho de 1959, quando futebol e arte pareciam caminhar lado a lado, o Santos de Pelé derrotou o Botafogo de Garrincha por 4 a 1 na decisão do Troféu Teresa Herrera.
O tradicional torneio foi criado pela Câmara Municipal de La Coruña, na Espanha, com o objetivo de arrecadar recursos para o Hospital Dolores. A instituição havia sido fundada no fim do século XVIII por Teresa Margarita Herrera y Posada, nascida em La Coruña em 10 de novembro de 1712. Conhecida por dedicar grande parte de sua vida ao auxílio dos mais necessitados, Teresa faleceu em 22 de outubro de 1791, aos 78 anos. Realizado até os dias atuais, o Troféu Teresa Herrera teve sua primeira edição em 1946, vencida pelo Sevilha, da Espanha.
Os cerca de 45 mil torcedores que lotaram o Estádio Riazor tinham razões de sobra para comparecer. A presença dos dois gigantes brasileiros proporcionou a maior arrecadação da história da competição beneficente: mais de 600 mil pesetas, o equivalente a um milhão de cruzeiros. Em solo espanhol, raramente se havia visto a bola receber tratamento tão refinado.
Sob o comando do técnico Lula, o Santos entrou em campo com Lalá, Pavão (Formiga) e Mourão; Getúlio, Ramiro e Zito; Dorval (Alfredinho), Jair Rosa Pinto (Álvaro), Afonsinho (Coutinho), Pelé e Pepe. O Botafogo, dirigido por João Saldanha, atuou com Ernani, Tomé e Aírton (Pampolini); Chicão, Borges e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Waldir e Zagallo.
A partida reuniu nada menos que sete jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Pelo Botafogo estavam Nilton Santos, Garrincha, Didi e Zagallo. Pelo Santos, Zito, Pelé e Pepe.
A vitória santista reforçou a condição do time da Vila Belmiro como uma das grandes forças do futebol da época. Pouco mais de um mês antes, o clube já havia conquistado o Torneio Rio-São Paulo de 1959. Embora o Botafogo contasse com mais jogadores da Seleção Brasileira, o conjunto santista demonstrava maior entrosamento e equilíbrio.
Quando a etapa inicial se encaminhava para o fim, Pelé foi derrubado por Tomé dentro da área. Pepe cobrou o pênalti com firmeza e colocou o Santos em vantagem no marcador.
Nos primeiros minutos do segundo tempo, o Botafogo mostrou maior iniciativa e levou perigo ao gol santista.
Ainda assim, foi o Santos quem ampliou. Pelé invadiu a área e finalizou cruzado, sem chances para o goleiro Ernani.
O terceiro gol nasceu dos pés de Coutinho. Após receber passe de Pepe, o centroavante concluiu com precisão para aumentar a vantagem santista. Aos 24 minutos, o Botafogo descontou. Zagallo arriscou de longa distância e surpreendeu Lalá, diminuindo para a equipe carioca.
Aos 32 minutos veio o golpe final. Próximo ao gol adversário, Pepe recebeu a bola e completou para as redes, decretando o placar de 4 a 1. Nas arquibancadas completamente tomadas do Riazor, o público levantou-se para aplaudir. E continuaria a fazê-lo durante os minutos derradeiros daquela exibição que encantou a Espanha.
Encerrada a partida, o Glorioso Alvinegro Praiano recebeu o artístico Troféu Teresa Herrera — atualmente exposto no Memorial das Conquistas da Vila Belmiro — e celebrou o título com a tradicional volta olímpica.