O primeiro título ninguém esquece

O primeiro título ninguém esquece

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória

O primeiro título expressivo na vida do Santos FC é inesquecível, principalmente por ter sido conquistado no território inimigo e, justamente, em cima do maior rival. Ele aconteceu em 17 de novembro de 1935, um domingo, quando o Alvinegro Praiano, jogando no estádio Alfredo Schuring, o popular Parque São Jorge, no bairro paulistano do Tatuapé, venceu o Corinthians por 2 a 0, com gols de Raul Cabral Guedes e Araken Patusca.

Naquela tarde, incentivado por um público que subiu a serra de trem para apoiá-lo, o Santos jogou com Cyro, Neves e Agostinho; Ferreira, Marteletti e Jango; Saci, Mario Pereira, Raul, Araken  e Junqueirinha. O técnico era Virgílio Pinto de Oliveira, o popular Bilu, o Rei do Carrinho, como também era conhecido na época em que jogava na defesa do time da Vila Belmiro.

O título deu ao Santos a Taça Capitão F. Guedes, ofertada pela Liga Paulista de Futebol, que promovia o seu primeiro campeonato no Estado. Hoje essa taça está exposta no Memorial das Conquistas, no estádio Urbano Caldeira.

Para ganhar o primeiro de uma série de 22 títulos estaduais conquistados até hoje, o Peixe disputou 12 partidas, vencido nove, empatado duas e perdido apenas uma; marcando 32 e sofrendo 12 gols.

Jogo limpo, ou fogo no Parque São Jorge

Segundo entrevista do meia-atacante Mário Pereira, o “Perigo Loiro”, caso o time santista fosse prejudicado pela arbitragem, como aconteceu na partida final do campeonato de 1927, a torcida do Santos incendiaria o Estádio do Parque São Jorge.

Por orientação do presidente do Santos, Carlos de Barros, estivadores do Porto levaram galões de gasolina em um vagões da São Paulo Railway alugados para conduzir a torcida santista para o jogo. Se a arbitragem de Heitor Marcelino Domingues prejudicasse acintosamente o Santos, os estivadores colocariam fogo nas arquibancadas de madeira do estádio.

Mas não foi preciso apelar para atitude tão extrema. O Santos jogou melhor e ganhou com autoridade, por 2 a 0. Raul marcou aos 36 minutos do primeiro tempo e o ídolo Araken Patusca ampliou aos 27 minutos do segundo.

Filho do primeiro presidente santista, Sizino Patusca, e irmão do artilheiro Ary Patusca, Araken, apelidado de “Le Danger” (O Perigo) pelos franceses, jogou 196 partidas pelo time que aprendeu a amar desde garoto, marcando 184 gols com a camisa do Peixe. Sétimo artilheiro da história santista, ao lado do ponta-esquerda Edu. Araken foi também o artilheiro máximo dos campeonatos paulistas de 1926 e 1927.

Como A Tribuna descreveu a façanha

O jornal A Tribuna noticiou assim a inédita conquista santista:

O feito brilhante do Santos, no campeonato da Liga Paulista, este anno, encheu de justo contentamento a população esportiva da cidade. Nunca se constataram no terreno do esporte tantas e tão vivas demonstrações de enthusiasmo. Logo que os radios annunciaram a victoria final, as ruas começaram a movimentar-se, como se qualquer coisa de anormal e estranho houvesse acontecido.

Em pouco tempo, a praça Ruy Barbosa, em frente ao “Café Paulista”, estava repleta de pessoas, e à medida que se aproximava a hora da chegada da delegação, o publico ia aumentando. Tomaram-se preparativos para que a recepção fosse condigna. Duas bandas de musica esperavam os campeões.

Estenderam-se cartazes na Rua do Commercio, por onde deveriam passar os jogadores. De tudo se cuidou com carinho. Todos se interessavam pelo brilhantismo da chegada do alvi-negro. Não havia clubismo. Elementos de todos os gremios se faziam representar na estação da inglesa. Era uma victoria do Santos e da cidade de Santos.

Innenarravel o que se passou quando o comboio que conduzia o Santos deu entrada na “gare”. Os jogadores campeões foram como que arrancados dos carros e trazidos para a rua. aos hombros dos aficionados. Flôres cobriam os defensores do Santos. A satisfação era indisfarçavel. Abraços e mais abraços. Vivas e hurras. Contentamento geral. As bandas de musica executaram as primeiras marchas e ahi o enthusiasmo attingiu o auge. Espectaculo indescriptivel.

E a multidão começou a caminhar vagarosamente, em demanda da cidade, engrossando cada vez mais, vivando sempre os campeões. Na praça Ruy Barbosa subiram ao ar muitos foguetes. Os jogadores conduzidos nos hombros dos torcedores, e assim vieram até a redação desta folha. Ahi fizeram uma parada e foram saudados.

Os milhares de manifestantes dispersaram-se sómente depois que os jogadores deram entrada na séde do clube, onde se repetiram, com a mesma intensidade, as grandes manifestações de enthusiasmo.

Em todo esse enthusiasmo pela victoria do Santos não se póde esquecer a figura dedicada de Virgílio Pinto de Oliveira (Bilu), a quem coube, nesta temporada, o difficil encargo de tudo prover technicamente na turma do Santos. Foi elle quem, com acertadas medidas, óra modificando, óra incluindo novos elementos, incentivando-os e animando-os, conduziu o time do Santos à victoria final.

Dentre os elementos por elle “descobertos” destacam-se Mario Pereira, que, ainda militante no quadro juvenil, no anno passado, se tornou em curto espaço de tempo campeão paulista. Os progressos do “mignon” futebolista foram rapidos e hoje póde ser considerado um dos titulares da equipe. São campeões paulistas de 1935 os seguintes jogadores: Cyro, Neves, Meira, Agostinho, Ferreira, A. Figueira, Marteletti, Jango, Sacy, Mario Pereira, Biruta, Delso, Raul, Araken, Sandro, Logu e Junqueirinha.

Para completar a festa, três meses depois o segundo quadro do Santos também seria o campeão paulista de 1935, em decisão que só ocorreria em 2 de fevereiro de 1936. Nesse dia o Alvinegro assegurou o título estadual ao vencer o Palestra Itália, atual Palmeiras, por 2 a 1, com gols de Biruta e Franco II.

Nessa partida decisiva, o Peixe, que tinha como técnico Salustiano da Costa Lima, o folclórico Salu da Bandinha, entrou em campo com Magalhães, Bompeixe e Agostinho; Figueira, Dino e Silva; Grache, Biruta, Raul, Franco II e Wilson.