O dia em que os franceses acharam que o Santos era a Seleção Brasileira

O dia em que os franceses acharam que o Santos era a Seleção Brasileira

Guilherme Guarche, do Centro de Memória

Nove décadas atrás, quando retornava à Europa a bordo do navio S.S. Duílio, vindo do Uruguai, a delegação da temida Seleção da França fez uma escala no porto de Santos. No país vizinho havia participado da primeira Copa do Mundo e lá fora eliminada pela Argentina, em jogo equilibrado.

O Santos aproveitou a estada da equipe apelidada de “Diabos Azuis” e a convidou para uma partida na Vila Belmiro. Os franceses aceitaram o convite e numa quarta-feira, dia 30 de julho de 1930, deu-se o esperado embate.

Por falta de iluminação artificial na praça de esportes do Alvinegro, a partida foi disputada no período vespertino. A tripulação do navio ficou aguardando seus principais passageiros jogarem a primeira partida da Seleção Francesa em solo brasileiro.

Nesse jogo festivo, que marcaria um dos grandes momentos da história santista, o então prefeito de Santos, José de Souza Dantas, determinou que o expediente no comércio local se encerrasse às 14 horas, para que todos os torcedores, não só do Litoral, mas de todo o Estado, pudessem assistir à esperada partida entre a seleção europeia e o time que nos últimos três anos havia obtido o vice-campeão estadual.

O Santos já era conhecido em todo o Brasil como “O time do ataque dos 100 gols”, devido à memorável campanha de 1927, em que o ataque praiano detonava as equipes adversárias com placares elásticos, e só não ganhou o campeonato regional por ter sido prejudicado pela arbitragem no jogo final contra o Palestra Itália, em que perdeu por 3 a 2.

O Alvinegro Praiano tinha mantido a base do time desde então, com Athié no gol, Aristides e Meira na zaga; Osvaldo, Roberto e Alfredo na ligação com o meio campo; e no ataque Omar, Camarão, Mário Seixas, Feitiço e Evangelista.

O técnico era o conceituado uruguaio Ramon Platero, que treinou os times cariocas Vasco da Gama e Flamengo. Ele fora também treinador da Seleção Brasileira de Futebol em 1925.

A única ausência no time santista era a de Araken Patusca, que deixara a Vila Belmiro no início do ano para dar seu lugar ao baiano Mário Seixas. Araken, no entanto, participara da Copa disputada no Uruguai inscrito pela Confederação Brasileira de Futebol.

Um dos nomes mais comentados nas conversas entre os torcedores era o do jogador Lucien Laurent, autor do primeiro gol na Copa do Mundo, na partida em que os franceses venceram o México por 4 a 1.

As arquibancadas de madeira da praça de esportes do clube santista, no bairro da Vila Belmiro, ficaram apinhadas de entusiasmados torcedores que queriam testemunhar um acontecimento marcante para o futebol nacional.

A Gazeta descreve o espetáculo

Diário vespertino fundado em 1906 por Adolfo Araújo, em São Paulo, que deixou de circular em 1979, transformando-se em um suplemento do jornal A Gazeta Esportiva (que por sua vez também deixou de circular 20 anos depois), A Gazeta do dia seguinte ao jogo foi às bancas com a seguinte matéria:

Jogo amplamente divulgado pelos principais jornais do país, não foi difícil lotar o modesto estádio do Santos, que se encheu de expectativa. A festa estava bonita. Na entrada ao campo, a equipe local empunhava a bandeira francesa, em claro sinal de amizade e respeito.

A França vinha com sua equipe principal ao campo (Thepot, Antoine, Mattler, Laurent, Dhene, Chantrel, Liberaly, Pinel, Machinot, Delfour e Villaplane – o técnico era Raoul Caudron). O juiz era Enéas Sgarzi, auxiliado por Panariello e Ascanio.

Iniciada a partida, às 16h40, os gauleses tomavam conta do jogo, com mais ousadia. O alvinegro estudava com calma a forma dos adversários jogarem. Athiê foi o jogador praiano mais acionado e mostrava sua categoria fazendo grandes defesas.

Na primeira jogada perigosa, Laurent toma a bola de Camarão e passa para Pinel, que toca para Machinot. Este, ajusta sua posição e solta um “petardo” por cima da trave. O Santos tenta contra-atacar, mas Feitiço falha em duas oportunidades.

A França revida pela esquerda. Delfour finta Osvaldo e só não fica cara a cara com o arqueiro santista porque Meira entra de carrinho para afastar o perigo. O Santos demorava a reagir, até que aos 16 minutos começou a tirar as “mangas de fora”.

Os “Diabos Azuis”, como eram chamados os franceses da seleção, continuavam tentando chutes de longe, mas sem êxito nos intentos. Os santistas controlavam melhor a bola no meio de campo e não davam muito espaço aos adversários.

O ataque praiano não parecia estar num dia muito feliz. Até mesmo o grande Feitiço errava demais. Os franceses atuavam superiormente e a todo instante impunham ao goleiro santista trabalho dobrado.

Os gauleses se empolgaram e partiram para o ataque sem cuidar da defesa. Resultado: Omar avançou pelo centro e cruzou. Feitiço apanha a bola à distância de três jardas da meta e bate forte, encaixando à meia altura do lado esquerdo de Thepot, que não foi feliz em sua tentativa de defesa: Santos 1 a 0.

O gol do Santos FC animou a equipe local. Dois minutos depois, Camarão avança pela direita e alonga um passe para Omar, que cruza na direção da área francesa. Feitiço prepara-se para pegar a bola com Mattler grudado em seu calcanhar.

O zagueiro gaulês não teve êxito na marcação e o artilheiro praiano não perdoou, anotando o segundo gol com outro forte chute: 2 x 0 para o time da casa. A torcida estourou em vivas para a equipe brasileira. Os franceses se entreolhavam, não compreendendo o que acontecia.

Antes de ser retomado o segundo tempo da partida, Feitiço ofereceu aos visitantes um cartão de prata com os seguintes dizeres: “Aos Diabos Azuis – O Santos F.C. – Brasil – 30 de julho de 1930”.

Retomada a partida, os jogadores do time europeu pareceram determinados a virar o placar. Afinal de contas, eles formavam a seleção de um país forte no esporte e não deveriam perder para uma simples equipe local. A pressão era grande. Pinel chuta de longe e a bola passa rente à trave.

Em jogada posterior, Machinot avança rápido e alonga para Delfou, que, dentro da área, chuta rasteiro, mas Athiê defende. O gol europeu estava ficando maduro. Os “Diabos Azuis” atacavam pela esquerda e Delfour sofre falta, logo batida para Machinot, que avança e devolve ao companheiro. Delfour chuta forte no alto, sem chance para o arqueiro santista. Gol da França, que diminui o placar: 2 a 1 para o time da casa.

Os santistas, ao contrário do que supunham os franceses, não sentiram o baque e partiram para cima da meta europeia. Mário Seixas, recebendo um passe de Evan, do centro da grande área adversária, bate firme. A bola é parcialmente defendida por Thepot, que se atrapalha com Antoine, indo o balão parar no fundo das redes: Santos 3 a 1.

Dali por diante os franceses pareciam terem tomado um banho de água fria, o que facilitou a vida do artilheiro Feitiço, que ainda anotou mais dois, sendo um de cabeça. Mário Seixas jogou a “pá de cal”, marcando o sexto tento contra os visitantes, totalizando um placar histórico: 6 a 1 para o Santos F.C.

Assim, com quatro gols de Feitiço e dois de Mário Seixas venceu o conceituado adversário por nada menos do que 6 a 1. Os franceses não queriam acreditar que tinham enfrentado apenas um time brasileiro. O chefe da delegação europeia vociferava em altos brados:

Fomos enganados, isso é uma desonestidade! Os senhores nos convidam para enfrentar o Santos, e colocam na nossa frente a Seleção do Brasil.

Entende-se a reação do dirigente francês ao se saber que Seleção Brasileira que representou o Brasil na Copa de 1930 era formada quase exclusiva,mente por jogadores em atividade no Rio de Janeiro e, provavelmente, não era tão forte como o Santos, um time harmonioso, ofensivo, que mantinha a mesma base há alguns anos.

Foi preciso que o presidente santista, Guilherme Gonçalves, levasse os incrédulos dirigentes à sede do clube na rua Itororó, 27, para mostrar uma foto em tamanho natural do time da Vila Belmiro, com cada um dos jogadores presentes à partida.

No mesmo ano o campo do Santos recebeu do jornalista Antônio Guenaga (*05/12/1902, +10/06/1966), de A Tribuna”, o apelido de “Alçapão”. Em 1930 o Santos fez 25 partidas em seu estádio e não perdeu nenhuma, obtendo 21 vitórias e quatro empates.