O dia em que o Rei chegou ao Reino do Futebol

O dia em que o Rei chegou ao Reino do Futebol

Por Odir Cunha e Guilherme Guarche, do Centro de Memória

Dona Celeste não queria que o filho jogasse futebol. Bastava o sofrimento do marido, Dondinho, ferido seriamente no joelho logo em sua estreia no Atlético Mineiro. Mas Pelé, aos 15 anos, já era uma sensação em Bauru e um dia Elba de Pádua Lima, o Tim, técnico do Bangu, apareceu na casinha dos Nascimento para tentar levar o garoto para o Rio de Janeiro. Dona Celeste estremeceu de pavor ao imaginar o filho adolescente vivendo em meio às tentações da cidade maravilhosa. Tim voltou para o Rio de mãos abanando. Mas com Waldemar de Brito foi diferente.

Chamado de “Dançarino” nos seus tempos de centroavante, artilheiro do Campeonato Paulista de 1933 pelo São Paulo da Floresta, destaque em equipes como São Paulo, Botafogo, San Lorenzo, Flamengo e titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1934, Waldemar ostentava um currículo tão respeitável como o de Tim, mas levava vantagem por ser amigo de Dondinho e técnico de Pelé no time infantil do Bauru Atlético Clube, o Baquinho.

Pelé ainda se lembra quando Waldemar foi à sua casa tentar convencer Dona Celeste de que o Santos, time que dava oportunidade aos jovens, e a tranquila cidade de Santos seriam o melhor lugar para o filho. Waldemar chegou a chorar enquanto falava do futuro brilhante que esperava o garoto. Dondinho ajudava nos argumentos. Por fim, dona Celeste consentiu. Após cumprimentos e sorrisos aliviados, marcou-se o dia da viagem: 22 de julho, um domingo de futebol daquele ano de 1956.

Waldemar já tinha tudo preparado. Prometera ao deputado estadual Athié Jorge Cury (ou Coury, como foi registrado ao nascer), presidente do Santos, que se este lhe conseguisse um emprego público em São Paulo, lhe entregaria, e de graça, “o futuro melhor jogador do mundo”.

Vivido no futebol, Athié percebeu, pelos elogios do experiente técnico, que o menino de Bauru realmente deveria ser muito bom. Em um almoço na Ilha Porchat, em São Vicente, Athié conseguiu que o governador de São Paulo, Jânio Quadros, concordasse com o emprego para Waldemar de Brito.

Até ali Pelé nunca tinha usado calças compridas. Símbolos de um precoce ritual de passagem, duas delas foram costuradas por dona Celeste com cortes de brim azul. Na madrugada do domingo, 22 de julho, Pelé e Dondinho embarcaram no trem da Companhia Paulista de Estradas de Ferro para encontrar Waldemar de Brito na Estação da Luz, em São Paulo. Almoçaram em um restaurante próximo à estação e desceram para Santos em um ônibus do Expresso Brasileiro.

Na viagem, o garoto veio ouvindo conselhos do pai e do técnico. Pediam para que ele não bebesse, não fumasse, não se metesse com mulheres e não lesse jornais ou ouvisse rádios, principalmente antes de um jogo. Tinham o receio de que críticas ou elogios exagerados tirassem a concentração do jovem craque.

Ao desembarcarem, foram direto para a Vila Belmiro, onde o Santos enfrentava o São Bento de São Caetano do Sul pela quinta rodada da fase de classificação do Campeonato Paulista. Waldemar de Brito providenciou para que a mala de Pelé fosse para a concentração dos jogadores, no estádio, e conseguiu bons lugares para Dondinho e Pelé assistirem ao jogo.

O meia-direita Bota abriu o marcador para o time do ABC aos 12 minutos. Mas Tite empatou ainda no primeiro tempo e, no segundo, Vasconcelos marcou mais dois para o Santos, fechando em 3 a 1 a quinta vitória consecutiva do time no campeonato que tornaria o Santos bicampeão paulista. Pelé diz que, quando percebeu, já estava torcendo para o Santos, assim como os outros 5.300 torcedores presentes no Urbano Caldeira.

Ao final do jogo, Waldemar de Brito levou pai e filho ao vestiário. Ao ser apresentado aos visitantes, o técnico Lula sorriu para o garoto:

“Então, você é o tal Pelé, heim? Já estávamos esperando por você. Fique à vontade”.

Dondinho disse que Pelé ficaria na Vila e pediu para Vasconcelos tomar conta dele. Vasco, como o chamavam, gostava da farra, mas levou a sério a incumbência paterna e jamais permitiria que Pelé bebesse ou fumasse. Brincalhão, agarrou o garoto pelo pescoço e avisou: “Pode deixar!”. Pelé se sentiu à vontade em meio aos cobras santistas, que ele só conhecia por figurinhas:

“Naquela noite eu dormi na concentração dos jogadores, na Vila Belmiro, onde também viviam Cássio, Raimundinho, Hugo, Dorval e Vasconcelos. Todos me trataram muito bem.”

No dia seguinte, o ponta-esquerda Pepe foi apresentado ao menino trazido pelo respeitado Waldemar de Brito, e ficou impressionado com a atitude do garoto:

“Eu tinha ido cortar o cabelo no Espanhol, em frente ao estádio (onde hoje é a barbearia do Didi). O Waldemar de Brito soube que eu estava ali e veio me cumprimentar. Trouxe com ele o Pelé e me apresentou. Poxa, o garoto me apertou a mão com força e me olhou bem nos olhos. Aquilo me impressionou. Dava para ver que não era mais um que tinha ido tentar a sorte no Santos. Aquele tinha vindo para ficar.”

Como se sabe, o menino ficou. Quatro meses e meio depois seu amigo e protetor Vasconcelos quebrou a perna em um clássico contra o São Paulo, e Pelé, aos 17 anos, teve a sua chance no time principal. Bem, o que ocorreu nos 18 anos seguintes todo mundo sabe. Curiosamente, em seu último jogo pelo Santos, em outubro de 1974, Pelé foi orientado pelo técnico Tim, o mesmo que 18 anos atrás tentou levá-lo para o Rio.

 

Primeira reportagem

Três dias depois de chegar ao Santos, em 25 de julho de 1956, Pelé foi assunto em reportagem do jornalista Adriano Neiva, o De Vaney, de A Tribuna. Dizia o jornalista que no treino de 40 minutos “destacou-se sobremaneira o meia-direita que formou no time dos suplentes, com um trabalho sóbrio, porém de boas qualidades técnicas”. Após o treino, ainda segundo De Vaney, o departamento profissional do clube entrou em entendimentos com pai do jogador, João Ramos do Nascimento, o Dondinho, e Waldemar de Brito, “o famoso jogador do passado, que é o orientador intelectual da grande promessa futebolística”, e acertou-se que o jovem Edson Arantes do Nascimento receberia seis mil cruzeiros mensais (o equivalente a dois salários mínimos da época) e ganharia uma bolsa de estudos do Santos Futebol Clube para cursar o ginásio em um colégio da cidade.