O clássico de Pelé e Garrincha

O clássico de Pelé e Garrincha

Por: Odir Cunha

Em 1963 um ranking mundial revelou que Santos FC e Botafogo eram, respectivamente, o primeiro e o segundo times do mundo. Um tinha Pelé, o outro Garrincha. E no mesmo ano eles tiveram duas decisões, ambas no Maracanã: em 2 de abril, decidindo a Taça Brasil, o Santos se tornou bicampeão brasileiro ao bater o rival por estrondosos 5 a 0; quatro meses depois, na semifinal da Conmebol Libertadores, nova goleada santista, dessa vez por 4 a 0.

Na verdade, aqueles Santos FC e Botafogo, maiores expressões do futebol arte, times que se uniam para formar a Seleção Brasileira, invariavelmente faziam duelos belos e equilibrados, mas aquelas duas acachapantes vitórias santistas em 1963 deixaram para a história a imagem de uma enorme superioridade santista, admitida até pelo notável jornalista Armando Nogueira.

Bem isso posto, vamos à estatística fornecida pela Centro de Memória do Santos Futebol Clube. Para começar, fique sabendo que até agora Santos FC e Botafogo já se enfrentaram 107 vezes, com 42 vitórias santistas, 28 empates, 37 vitórias botafoguenses, 183 gols marcados pelo Santos e 154 pelo time carioca.

Pelo Campeonato Brasileiro já se enfrentaram 60 vezes e a vantagem santista é de apenas duas vitórias, pois obteve 22 delas, contra 20 do adversário, além de 18 empates. O Santos FC marcou 81 gols e sofreu 63.

Na estreia, goleada e fair play

O historiador Guilherme Gomez Guarche nos conta que “a primeira partida entre as duas equipes aconteceu em 14 de abril de 1918, dia em que o Santos FC completava seis anos de existência” e comemorou a data vencendo “pela goleada marcante de 8 a 2”.

O mais interessante dessa goleada, segundo Guarche, é que o árbitro marcou um pênalti a favor do Santos, mas os próprios jogadores santistas acharam que não foi. Então, em um gesto magnânimo, Arnaldo Silveira, ponta-esquerda santista, cobrou propositalmente a penalidade para fora, no que foi reverenciado pelos jogadores do time carioca.

Nessa partida o Santos FC foi dirigido pelo técnico Juan Bertoni e os gols santistas foram marcados por Ary Patusca (3), Millon Jr. (2), Haroldo, Marba e Arnaldo Silveira.

O maior jogo do mundo e o poeta

Assim o jornalista Ney Bianchi definiu a partida que, mesmo sendo jogada em abril de 1963, definiu a Taça Brasil do ano anterior. Nessa partida, somando santistas e botafoguenses, estavam em campo oito titulares e três reservas campeões da Copa do Chile em 1962. O Santos FC formou com Gylmar, Lima, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho (depois Tite), Pelé e Pepe. Pelo Botafogo jogaram Nílton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo e Zagallo, todos titulares na Copa.

Conforme lembra Guilherme Guarche, “quem também ficou maravilhado com essa partida foi o poeta Guilherme de Almeida”, que escreveu:

Ficar durante noventa eternidades, isto é, noventa minutos, pregado, hipnotizado, diante do vídeo. Medo de ter palpite – a vergonha daqueles três a um com baile, outro dia, por trinta e sete milhões de cruzeiros – tudo contra a gente – no Maracanã de novo – os fatores campo e torcida – o locutor contou que havia apostas humilhantes para nós – mas Gilmar disse ao repórter que: “Nunca o Santos FC perdeu duas vezes seguidas”-? – aquele comentarista respondendo a uma consulta – Pelé já marcou em toda a sua carreira quatrocentos e um gols, mas nunca marcou um único nos jogos da Taça Brasil – eles ganharam o toque – começam ganhando – mau, mau – foi dada a saída…

É agora.

Religiosidade: – a gente benze-se, diz “Valha-nos Deus!”, faz figa, dá com os nós dos dedos três pancadinhas na madeira. O gigantesco disco do Maracanã. Um samba (não quadrado, pois que é disco) bossa-nova. E a gente vai ouvindo: – Defesa espetacular de… Terceiro escanteio contra nós – o gol está pingando…

Não pingou… Quase…

Arre!

De repente:

“Gol de Dorval aos vinte e seis minutos do primeiro tempo: Um a zero”.

“Gol de Pepe aos quarenta e um minutos do primeiro tempo: dois a zero”.

“Gol de Coutinho aos nove minutos do segundo tempo: três a zero”.

A gente respira. Mas, cuidado com a virada! Olha só: quase que… Então aquele que, pelos mundos por onde tem andado e em que tem reinado, já fez quatrocentos e um gols, mas para a conquista da IV Taça Brasil, nunca havia feito um único, brincando assina a nanquim as duas últimas faixas, twist, bossa-nova, do long-play guanabarino. Assina a nanquim:

“Gol de Pelé aos trinta minutos do segundo tempo: quatro a zero”.

“Gol de Pelé aos trinta e cinco minutos do segundo tempo: Cinco a zero”.

Sobre o grande círculo, Zito ergue a taça que a noite carioca enche de estrelas.

No vestiário, descalçando a chuteira, o Rei sorri!”

O clássico na opinião de Tostão

Os dois maiores times que eu vi no futebol brasileiro foram o Santos FC de Pelé e o Botafogo de Garrincha. Eu era menino, já estava no juvenil, vi um Santos FC contra o Botafogo no Maracanã, que coisa espetacular! Pelé, Coutinho, Garrincha, Didi, Nilton Santos. Talvez fosse melhor do que hoje é Real Madrid x Barcelona. No mínimo, no mesmo nível. Imagina…o mundo hoje para pra ver Real Madrid x Barcelona. Todo mundo diz “que espetáculo”. E tinha aqui no Brasil o Santos FC x Botafogo no mesmo nível, espetacular. Eu lembro de um gol que o Pelé e Coutinho chegam trocando passes numa tabela, aí o Manga sai na entrada da área, aí tem o toque por cima dele. Emocionante lembrar disso. Esses duelos Santos FC e Botafogo estavam acima de todos.