Nunca desacredite dos Meninos

Nunca desacredite dos Meninos

Alguns influentes jornalistas esportivos já tinham decretado que o Santos não conseguiria reverter a situação, após ser derrotado no primeiro jogo da final por 2 a 0, e por isso, no dia 6 de maio de 2007, um domingo, a multidão de santistas que fosse ao Morumbi sairia de lá triste, ouvindo a algazarra dos torcedores do São Caetano, o emergente time do ABCD que já tinha sido campeão estadual em 2004 e seria de novo naquele 2007.

Na verdade, havia alguns motivos para iludir os pragmáticos. Na semifinal, mesmo jogando no Pacaembu e no Morumbi, o Santos não saíra de dois empates sem gols contra o limitado Bragantino, enquanto o São Caetano, também jogando na Capital, empatara em 1 a 1 e goleara o São Paulo por 4 a 1. Como o São Caetano já vencera o Santos , no primeiro jogo daquela decisão, por 2 a 0, era o favorito para o título.

Bem, isso é o que pensavam esses senhores em suas aconchegantes salas acarpetadas, refrescados pelo ar condicionado. Mas lá em campo, onde o bicho realmente pega, seria assim? Bem, vamos ao texto…

Moraes, o iluminado

Por Gabriel Santana e Odir Cunha, do Centro de Memória

Em 6 de maio de 2007 o Morumbi recebeu 59.063 espectadores, 90% deles torcedores do Santos, para a decisão do Campeonato Paulista. Aquele jogo poderia representar o 17º título e o bicampeonato para o Peixe, já que vencera também em 2006, ou o segundo título estadual na iniciante história do São Caetano.

Dirigido por Dorival Junior, ainda um técnico emergente, o São Caetano tinha uma equipe equilibrada, na qual se destacava o meio-campo Douglas, um ótimo passador, e o insinuante atacante Somália, que viria a se tornar o artilheiro do campeonato, com 13 gols.

O Santos, do técnico Vanderlei Luxemburgo, era um time mais competitivo, fortalecido por uma história incomparável que dá peso à sua camisa, impulsionado por uma torcida enorme, tão ou mais apaixonada do que as mais apaixonadas, e abençoado pelos deuses do futebol, que parecem mexer os pauzinhos quando tudo parece perdido.

Mas ninguém disse que não haveria sofrimento. O gol, do zagueiro Adailton, saiu aos 25 minutos do primeiro tempo, após cobrança de escanteio. E o primeiro tempo ficou por aí. Os experientes Zé Roberto e Jonas criaram e perderam chances, mas o placar não se alterou.

No segundo tempo, a agonia persistia e o jogo entrava nos seus últimos dez minutos quando Luxemburgo, numa decisão ousada, tirou Jonas e colocou o garoto Moraes em campo. Moraes é um Menino na Vila em dobro, pois seu pai, Aluizio Guerreiro, também foi um Menino da Vila. Mas uma mente pragmática não o teria colocado naquele jogo, isso é certo.

Porém, como iluminado por uma centelha divina, o garoto correu, deu combate, não fugiu da bola. E aos 36 minutos, foi premiado. O cruzamento de Kléber, pela esquerda, veio alto, em curva, e o Menino Moraes, imitando Pelé na final da Copa de 70, subiu, jogou o corpo para trás e cabeceou para baixo, vencendo o então inexpugnável goleiro Luiz Silva.

O coro de “Vamos ser Bi Santôs!” ecoou pelo Morumbi, invadiu as ruas do bairro, a cidade de São Paulo, o Brasil, a Terra e chegou aos buracos brancos da Via Láctea… Glória aos bicampeões daquele dia, comandados por um Menino guerreiro: Fábio Costa, Maldonado, Adaílton, Ávalos e Kléber; Rodrigo Souto, Cléber Santana (depois Carlinhos), Pedrinho (Rodrigo Tabata) e Zé Roberto; Jonas (Moraes) e Marcos Aurélio.

Campanha do Campeão

O Peixe jogou 23 partidas no Paulista de 2007, obtendo 17 vitórias, quatro empates e duas derrotas. Marcou 47 gols e sofreu outros 21. Os atletas que contribuíram com gols na conquista foram: Cléber Santana (11), Marcos Aurélio (6), Rodrigo Tabata e Jonas (4), Zé Roberto e Rodrigo Tiuí (3), Fabiano, Pedro, Carlinhos e Moraes (2), Pedrinho, Kléber, Ávalos, Marcelo, Antônio Carlos, Renatinho, Domingos e Adaílton,um gol cada.

Meninos Moraes

O herói dessa conquista, Aluísio Chaves Ribeiro Moraes Júnior, ou simplesmente Moraes, foi formado pelo Santos e jogou no Peixe em 2007 e 2008. Marcou três gols em 25 partidas. Hoje, aos 32 anos, é um dos melhores atacantes da Ucrânia, onde defende o Shakhtar Donetsk. Ele é filho do ex-centroavante Aluísio Guerreiro e irmão de outro jogador que atuou com Robinho e Diego nos Meninos da Vila de 2002: Bruno Moraes, jogador do Santos em 2002 e 2003, campeão europeu pelo Porto em 2003/2004, hoje artilheiro do Trofense, de Portugal.