Nesta quinta-feira comemoramos o Dia Urbano Caldeira

Nesta quinta-feira comemoramos o Dia Urbano Caldeira

Por Guilherme Guarche e Odir Cunha, do Centro de Memória

A vida do Santos nunca foi fácil, mas no começo era ainda mais difícil. Não fosse o amor e a abnegação de alguns apaixonados, como o incansável catarinense Urbano Villela Caldeira Filho, e o Alvinegro Praiano não teria superado os obstáculos e iniciado um caminho de conquistas.

Visionário, mais do que manter o Santos vivo, Urbano queria torná-lo um dos times mais respeitados do mundo, sonho a princípio utópico que se transformou em realidade 30 anos depois de sua morte. Grande patrono santista, Urbano tem o seu dia nesse 9 de janeiro – dia em que seu busto foi inaugurado na tribuna de honra do estádio, em 1938, na gestão do presidente José Martins.

A presença paternal de Urbano se faz notar logo no início da história santista. Em 1913, um ano depois de fundado, o clube participou de seu primeiro Campeonato Paulista, porém, sem dinheiro para os lanches dos jogadores e as passagens de trem para São Paulo, o Alvinegro desistiu da competição depois de realizar apenas quatro jogos e sofrer três goleadas.

O único triunfo, porém, revelou-se histórico, pois o time, que contou com Urbano como jogador e técnico, goleou o Corinthians por 6 a 3 – em 22 de junho, no campo da Antarctica Paulista –, naquele que se eternizou como o primeiro clássico paulista. No relatório que fez sobre a partida, Urbano elogiou o jogo de passes curtos e a compactação da equipe, tática mais eficiente do que o exagero de dribles que se viu na estreia, quando o time foi goleado pelo Germânia por 8 a 1.

Longe de ser um craque, Urbano aos poucos deixou de jogar para se concentrar na armação da equipe, acumulando as funções de técnico e diretor de esportes. Dedicado ao extremo, era visto nas noites de lua cheia aparando a grama da Vila Belmiro para que ela crescesse mais forte. Seu exemplo inspirava os demais.

Boêmio, seresteiro, santista

Urbano Villela Caldeira Filho foi um ser humano de alma notável, um boêmio nato, solteirão, amante da noite, do sereno e principalmente das intermináveis serestas ao luar no Largo do Rosário. Gostava de praticar esportes e era um destacado folião na época do triduo de Momo, ocasião em que saía às ruas vestido de mulher com um lenço amarrado na cabeça, violão embaixo do braço e vivia a vida com intensidade e muita alegria, a ponto de ser um dos fundadores do Bloco Flor do Ambiente.

Nascido em 6 de setembro do ano de 1890, em Florianópolis, foi um exemplar funcionário público federal, trabalhou na antiga Alfândega de Santos, no mesmo prédio onde hoje funciona a nova repartição federal, na Praça da República, próxima ao cais.

Chegou ao clube do seu coração em janeiro de 1913 e se firmou como zagueiro. Depois decidiu treinar o segundo quadro e o time principal. Como técnico, sua melhor fase veio a partir de 1924, quando montou a equipe que em 1927 ficou conhecida como o time do ataque dos 100 gols, cuja linha ofensiva era formada por Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista. Depois que esse time goleador se desfez, Urbano ainda se manteve como treinador da equipe e vice-presidente do clube.

Ele amava muito o Santos Futebol Clube. Diziam os amigos mais íntimos que o Santos era a sua namorada predileta. Urbano era um sujeito alto, forte, que pisava firme por onde passava, olhando sempre para o alto. Aonde ia, levava a bengala e o chapéu palheta.

Era um cidadão elegante e muito educado. Tinha preferência pela cor branca, usava ternos de linho e sapatos dessa cor. Todos o respeitavam e o admiravam. De gestos e atitudes nobres, Urbano tinha hábitos simples, como o gosto pelo viradinho à paulista acompanhado de uma boa cerveja gelada.

O patrono do Santos Futebol Clube faleceu em 13 de março de 1933, na cidade de São Vicente devido a uma pneumonia contraída no Carnaval carioca. Um dia antes, Santos e São Paulo tinham feito o primeiro jogo da era profissional do futebol brasileiro, no estádio que seria batizado Urbano Caldeira. O grande visionário da história santista tinha apenas 42 anos. Com sua morte, os amigos resolveram extinguir o Bloco Flor do Ambiente. Quando ao Santos, continua seguindo o roteiro dos sonhos de Urbano.