Jair, rosa no nome, coice de mula no pé

Jair, rosa no nome, coice de mula no pé

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória

O meia Jair Rosa Pinto nasceu no dia 21 de março de 1921, uma segunda-feira. Jajá de Barra Mansa, como ficou eternizado no mundo da bola, na verdade era de Quatis, cidade carioca que em 1990 se emancipou do município de Barra Mansa. Seu outro apelido, dado por companheiros e adversários do futebol, era “Coice de Mula”, pois, apesar das pernas finas, batia na bola com uma potência incrível.

Desde menino Jair sonhava com a bola, até porque tinha um exemplo em casa, seu irmão, Orlando, que se consagrou na ponta-esquerda Vasco da Gama numa época em que o grêmio cruzmaltino tinha uma grande equipe, com craques como Leônidas, Fausto e Domingos da Guia, entre outros. O irmão de Orlando começou no futebol em Mendes, outra cidade da região, no time do frigorífico local. De lá, foi para o Barra Mansa FC.

Em 1938 Jajá de Barra Mansa era um garoto franzino, de 17 anos, e disputou o campeonato carioca pelo modesto Madureira. No ano seguinte o renomado técnico Ademar Pimenta o escalou na equipe principal e ele formou um trio sensacional com Isaías e Lelé e Jair. Foram chamados,  carinhosamente, de “Os Três Patetas”, numa alusão aos atores Curly, Larry e Moe, famosos pelos filmes de comédia nos anos de 1935 e 1941.

Em 1943, junto com seus dois companheiros, Jair foi contratado pelo Vasco da Gama, clube em que passou quatro anos e no qual despontou para o futebol brasileiro.

Em 1947 foi jogar no Flamengo. Entretanto, após uma derrota de 5 a 2 para o ex clube, em 1949, alguns dirigentes rubronegros o responsabilizaram pela goleada sofrida, queimaram sua camisa 10 no vestiário e o afastaram da Gávea. Então, o Palmeiras se interessou pelo craque das canelas finas, mas que tinha um canhão no pé esquerdo, e Jair seguiu para o Alviverde do Parque Antártica.

No ano seguinte, 1950, Jair disputou a Copa do Mundo no Brasil. A equipe acabou fracassando na final, como se sabe, mas ele foi um dos melhores jogadores da Seleção Brasileira.

Com a camisa da Seleção Canarinho, que usou pela primeira vez em 1940, numa desconfortante goleada de 6 a 1 sofrida para a rival Argentina (o gol do Brasil foi dele), Jair Rosa Pinto foi campeão sul-americano em 1949, vice mundial em 1950 e se notabilizou por fazer parte de um ataque inesquecível, ao lado de Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas e Ademir de Menezes.

Fez 41 jogos pela Seleção Brasileira, dos quais venceu 25, empatou cinco e perdeu 11. Marcou 24 gols, ou seja, não passou em branco em 58% dos jogos.

A experiência que faltava ao Santos

Em 195, Jajá se transferiu para o Santos. Tinha 35 anos, era bem experiente e caiu como uma luva no meio campo do time da Vila Belmiro. No Peixe, jogou ao lado do Rei Pelé e foi campeão paulista em seu primeiro ano no clube praiano.

Pelé relembra, saudoso, dos tempos de convivência e aprendizado com o mestre Jair:
“Tenho por ele muita admiração e uma enorme gratidão. Ele me orientou demais no começo da minha carreira”.

O futuro Rei do futebol tinha 15 anos quando começou a jogar na equipe santista. Temido pelos goleiros, Jair tinha um chute forte na perna canhota e costumava fazer gols em tiros de longa distância.

O ponta-esquerda Pepe, que jogou ao seu lado, afirma que a barreira até saía da frente quando Jair ia cobrar uma falta. Foi o grande líder que faltava no jovem time santista que estava em formação, e que anos mais tarde, se tornaria o grande esquadrão do Santos, da década de 60. Com toda a sua experiência e genialidade, foi fundamental para a formação de Pelé, Pepe e Coutinho.

Uma de suas melhores performances no Santos ocorreu na histórica vitória sobre o Palmeiras por 7 a 6, no Pacaembu, pelo Torneio Rio São Paulo de 1958, diante de 43.068 espectadores.

Ele ficaria no Alvinegro Praiano de 1956 até o final dos anos 1960, marcando 34 gols e sagrando-se campeão paulista em 1956/1958 e 1960 e do Torneio Rio São Paulo em 1959. Ao deixar a Vila foi contratado pelo São Paulo, e antes de encerrar a carreira, aos 42 anos, ainda defendeu a Ponte Preta.

Ao se aposentar, virou treinador e dirigiu a equipe santista em 1972. Permaneceu 31 jogos no comando do time Alvinegro, o suficiente para deter a maior marca de invencibilidade de um treinador à frente do Santos, com 25 jogos sem sofrer um revés.

Em seus últimos anos de vida, curtindo sua merecida aposentadoria, Jajá de Barra Mansa dedicava maior parte de seu tempo à criação de passarinhos que mantinha em sua casa na Barra da Tijuca um bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Ele, que odiava ser chamado de Jair “da” Rosa Pinto, só não se conformava com uma coisa: não ter ganho a Copa de 50. “Isso eu vou levar para a cova, mas, lá em cima, perguntarei para Deus por que perdemos o título mais ganho de todas as Copas, desde 1930”, brincava, lembrando a derrota para o Uruguai, na partida final.

Jair Rosa Pinto morreu na madrugada de 28 de julho de 2005, aos 84 anos, vítima de embolia pulmonar. O inesquecível meia esquerda de Vasco, Palmeiras e Santos estava internado no Hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, onde se recuperava de uma cirurgia no abdômen. Seu corpo foi velado no cemitério do Caju e cremado no mesmo dia de sua morte.

Nome de presidente

O atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, tem esse nome devido ao inesquecível meia. Palmeirense, Geraldo Bolsonaro, o pai do presidente, era um fã de Jair Rosa Pinto. E por uma dessas coincidências do destino, Bolsonaro nasceu também no mesmo dia 21 de março em que o craque veio ao mundo, só que em 1955, 34 anos depois