Dia da Mentira, Dia da Verdade

Dia da Mentira, Dia da Verdade

Por Odir Cunha e Guilherme Guarche, do Centro de Memória

O dia primeiro de abril se transformou no “dia da mentira” em 1564, na França, quando o rei Carlos IX instituiu o calendário gregoriano e o réveillon passou a ser comemorado em primeiro de janeiro. Os mais conservadores, porém, continuaram festejando a entrada do Ano-Novo em primeiro de abril, o que os tornava alvo de zombarias. No futebol, fatos inverídicos costumam ser divulgados nesse dia, como ocorreu no Santos em 1984.

Na sexta-feira, 30 de março, o Alvinegro Praiano havia goleado o Fortaleza por 4 a 1, no Castelão, pelo Campeonato Brasileiro. No domingo, o recém- empossado diretor de futebol Cássio Nogueira convocou a imprensa para uma revelação bombástica: o Santos tinha acabado de contratar Zico, o conhecido meia do Flamengo, aguardado naquele mesmo dia para fazer exames médicos e assinar contrato com o clube.

Cássio, o diretor de futebol, tinha sido zagueiro do Santos entre 1952 e 1957, período em que disputou 119 partidas com a sagrada camisa santista. Era um senhor respeitável. A notícia logo ganhou as manchetes.

Os jornalistas esportivos sabiam que o presidente santista, Milton Teixeira, não media esforços para fazer grandes contratações. No ano anterior, com um time forte montado com os investimentos de Teixeira, o Santos tinha sido vice-campeão brasileiro, perdendo a polêmica final justamente para o Flamengo de Zico. Se o chamado “Galinho de Quintino” viesse para a Vila Belmiro, é claro que o Alvinegro seria outro.

Horas depois, porém, para descontentamento geral dos santistas, Cássio Nogueira desmentiu a notícia, dizendo que se tratava de “um primeiro de abril”. Advertido pelo presidente Milton Teixeira, Cássio teve de pedir desculpas publicamente.

Dia da Verdade

Na Copa Libertadores de 2008 coube ao Santos receber o San José, da Bolívia, em um dia primeiro de abril. Doze dias antes, no jogo em La Paz, a o ar rarefeito dos 3.702 metros de altitude atrapalhou os santistas, que perderam por 2 a 1, de virada. Os 18 mil presentes ao estádio Jesus Bermudez, entre eles o presidente boliviano, Evo Morales, ficaram eufóricos com a vitória, mas nós, santistas, sabíamos que aquele resultado era mentiroso.

Enquanto teve fôlego, o Santos foi melhor e fez o seu gol, com Kléber Pereira, aos sete minutos, de cabeça. Mas o San José empatou e virou no segundo tempo, enquanto os santistas, sem oxigênio, se arrastavam em campo. O consolo era de que o jogo de volta seria na Vila Belmiro, ao nível do mar, em uma noite morna de terça-feira, primeiro de abril!

Mal o árbitro Liber Prudente, do Uruguai, autorizou o início do jogo, e os 8.340 torcedores presentes no Urbano Caldeira já perceberam que o confronto seria bem diferente do de La Paz. Aos 17 minutos, Kléber Pereira cobrou falta com cavadinha e o zagueiro Domingos penetrou para acertar uma cabeçada fulminante contra o gol de Vaca.

Aos 22 Molina driblou para o lado e bateu de esquerda, de fora da área, marcando o segundo gol. Dez minutos depois, o mesmo Molina aproveitou o rebote após cruzamento de Wesley, pela direita, e tocou no canto para fazer 3 a 0.

Para encurtar a história, na segunda etapa o colombiano Molina, em sua melhor exibição pelo Santos, marcou mais dois gols, que somados a um de Kléber Pereira e outro de Quiñonez elevaram a goleada para 7 a 0, configurando um resultado fiel à qualidade de Santos e San José. Foi assim que, em 2008, o Dia da Mentira se transformou no Dia da Verdade.