De Guardador de Carros a Rei das Pedaladas

De Guardador de Carros a Rei das Pedaladas

Por Gabriel Santana, do Centro de Memória

Enquanto guardava carros em frente ao cemitério Parque Bitaru, em São Vicente, o menino franzino, conhecido como “Neguinho do Cemi”, sonhava alto. Nascido em 25 de janeiro de 1984, em São Vicente, Robinho morava em uma área carente da cidade e, apesar dos obstáculos, insistia no desejo de virar jogador de futebol. Desde os seis anos já jogava no Beira-Mar, um time de futsal.

Três anos depois passou para a tradicional equipe do Portuários de Santos. Sua habilidade chamava a atenção e logo foi convidado para jogar pelo futsal do Santos. Lá, não demorou para passar para o futebol de campo.

O Santos tinha como presidente Samir Abul-Hak, eleito em 1994, que decidiu convidar Pelé para coordenar o departamento amador do clube. Com seu olho clínico para detectar futuros craques, Pelé logo percebeu as qualidades de Robinho e falou sobre elas em uma reportagem de tevê:

“O Robinho é um jogador que tem uma habilidade tremenda. É inteligente, de raciocínio rápido. É de São Vicente, tem 15 anos. Só precisa de uma atenção maior na alimentação.”

O garoto tinha pernas finas e corpo franzino. Segundo sua mãe, é porque não gostava de comer frutas e legumes. Mas a falta de peso não parecia atrapalhar seu futebol, pois em 2002, aos 18 anos, teve a primeira chance na equipe principal do Santos. Em um domingo, 24 de março, entrou no segundo tempo da partida contra o Guarani, na Vila Belmiro, pelo Torneio Rio-São Paulo. Substituiu Robert, que já tinha marcado os gols da vitória santista por 2 a 0.

A eliminação da equipe do Rio-São Paulo, em abril, provocou a demissão do técnico Celso Roth, substituído por Émerson Leão. A próxima competição seria o Campeonato Brasileiro, em julho. Nesse período apenas de treinamentos e amistosos, o novo técnico apostou em Robinho e nos outros Meninos que estavam despontando, como Diego, Elano e Alex. Isso deu confiança aos jovens, e Robinho não desperdiçou a oportunidade.

Seu primeiro gol pelo time de cima saiu em um amistoso preparatório para a disputa do campeonato nacional, diante do Comercial de Ribeirão Preto, no estádio Palma Travassos. Nesse dia, 13 de julho, um sábado, o Santos venceu por 5 a 0.

O meia de pernas finas e muita ginga iniciou o Campeonato Brasileiro como titular e tomou conta da posição, tornando-se um dos principais responsáveis pelo inesperado título santista daquele ano. Quando a situação estava difícil, ele chamava a responsabilidade e decidia.

Contra o São Paulo, nas quartas de final, foi o responsável pelas assistências nos gols de Léo e Diego, que garantiram a vitória e a classificação em pleno Morumbi. Contra o Grêmio, na semifinal, fez um gol de cobertura, além de provocar a expulsão do zagueiro Anderson Polga, pentacampeão do mundo, após ter aplicado dois dribles desmoralizantes no adversário.

Na inesquecível final contra o Corinthians, mostrou um vasto repertório: o grande espetáculo das oito pedaladas, o salto para deixar o zagueiro Anderson estirado no chão e o drible simultâneo em Vampeta, Kléber e até mesmo no árbitro Carlos Eugênio Simon, que também se perdeu na jogada. Esses três lances geniais deram ao Santos o título brasileiro de 2002 e o caminho de volta para as grandes conquistas. Após a partida, o camisa sete ficou eternizado como o “Rei das Pedaladas”.

Libertadores, Seleção e mais um Brasileiro

Na estreia na Copa Libertadores de 2003, o Menino deu mais um show, dessa vez, na Colômbia, contra o América de Cali. A torcida local fez questão de aplaudi-lo de pé. O Santos goleou por 5 a 1, fora o baile. Robinho não marcou nenhum gol, mas fez jogadas de encher os olhos.

Em 2004 Robinho conquistou sua primeira convocação para a Seleção Brasileira. Estreou em 5 de setembro de 2004, no Morumbi,  em jogo contra a Bolívia, pelas Eliminatórias da Copa de 2006. Entrou aos 25 minutos do segundo tempo no lugar do volante Edu. A Seleção venceu por 3 a 1.

Meses depois, o camisa sete viveu duas sensações diferentes: um grave problema familiar e a conquista de mais um título Brasileiro. Na reta final do certame sua mãe foi sequestrada e Robinho ficou sem atuar por seis partidas consecutivas. Retornou no última rodada, diante do Vasco, em São José do Rio Preto. Chegou a marcar um gol, que foi anulado erroneamente, mas o Peixe venceu por 2 a 1 e o no triunfo do Peixe por 2 a 1 e o “Neguinho do Cemi” pôde levantar seu segundo troféu com a camisa do Santos!

Carreira na Europa e retorno à Vila

O ano de 2005 marcou sua primeira despedida do Santos. Em agosto acertou sua transferência para o Real Madrid, pelo qual venceria dois Campeonatos Espanhóis e a Super Copa da Espanha. Permaneceu no Real até 2008, quando acertou sua ida para o Manchester City, da Inglaterra.

No primeiro semestre de 2010 voltou ao Santos, emprestado pelo time inglês, e teve um papel diferente na Vila Belmiro. Em sua primeira passagem ele era o menino iniciando seu sonho. Já em seu retorno, encontrou Neymar, Paulo Henrique Ganso, André e outros garotos na mesma situação em que estava quando começou sua carreira na Vila.

Com a sua camisa sete às costas e a faixa de capitão comandou os novos Meninos nas conquistas do Campeonato Paulista e da inédita Copa do Brasil. Nas duas campanhas o time santista aplicou goleadas acachapantes e encantou o Brasil com jogadas brilhantes e o famoso DNA ofensivo. As “dancinhas” após as marcações dos gols também foram uma marca registrada da equipe.

As boas atuações pelo Santos asseguraram a Robinho uma vaga na Seleção Brasileira que disputou a Copa na África do Sul e foi eliminada nas quartas de final pela Holanda. Ao retornar ao Manchester City, foi negociado com o Milan, da Itália, pelo qual conquistou um Campeonato Italiano, e a Supercopa da Itália.

Em 2014 retornou ao Santos mais uma vez, por empréstimo. Conquistou outro título paulista, o de 2015, e novamente assumiu o posto de capitão do time. Pela primeira vez teve a chance de vibrar com um título dentro da Vila Belmiro. Permaneceu no Santos até o meio da temporada.

Após sua terceira despedida do Peixe, realizou sua primeira experiência no futebol asiático, indo atuar pelo Guangzhou Evergrande, da China.  Lá conquistou o Campeonato Chinês e em 2016 retornou ao Brasil para defender o Atlético Mineiro. Em 2018 voltou à Europa, contratado pelo Sivasspor, da Turquia e atualmente joga pelo Istanbul Basaksehir, do mesmo país.

Seleção Brasileira

Robinho também alcançou uma bela trajetória na mais vitoriosa seleção nacional de futebol. Foi convocado para a disputa de duas Copas do Mundo, as de 2006 e 2010. Na primeira, foi reserva de luxo de Ronaldo e Adriano e, na segunda, titular do ataque ao lado do centroavante Luís Fabiano.

Conquistou duas vezes a Copa das Confederações, em 2005 e 2009; a Copa América, em 2007 e o Super Clássico das Américas, em 2014. Enquanto esteve no Santos, disputou 28 jogos pelo Brasil e marcou 11 gols.

Números e idolatria

Em suas três passagens pelo Alvinegro Praiano, Robinho soma 253 jogos e 111 gols. Ganhou cinco títulos: Campeonato Brasileiro, em 2002 e 2004; Campeonato Paulista, em 2010 e 2015, e Copa do Brasil, em 2010.

O torcedor santista guarda um grande carinho por Robinho, principalmente pelo ano de 2002, e há quem diga que ele ainda irá retornar para encerrar sua brilhante carreira onde tudo começou.