Coutinhos não morrem

Coutinhos não morrem

Coutinho, o rei da pequena área, o companheiro ideal de Pelé, o artilheiro que mantinha o sangue-frio mesmo diante de goleiros inexpugnáveis, surpreendia ao dizer que nunca foi apaixonado pela bola… Mas a verdade é que a bola sempre foi apaixonada por ele.

Antonio Wilson Honório não tinha nada de Couto. A mãe o chamava de coto de gente, pequenininho, e daí virou Coutinho.

Passou a infância no campo de futebol. Ou melhor, não teve infância. O técnico Lula o descobriu em Piracicaba, aos 12 anos, e o trouxe para o Santos.

Com 14 anos estreou no time profissional e marcou um gol na goleada de 7 a 1 sobre o Syrio Libanês de Goiás, em Goiânia.

Aos 15 anos foi artilheiro do Torneio Rio-São Paulo de 1959 e marcou dois gols na vitória final de 3 a 0 sobre o Vasco, no Pacaembu.

Em 1962, aos 19 anos, foi decisivo nas conquistas da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes e também seria titular do Brasil na Copa do Chile não fossem os problemas nos joelhos que acabariam abreviando sua carreira.

Mesmo assim, jogou até 1968 no Santos, pelo qual fez 457 jogos e marcou 368 gols, emprestando seu nome e talento para a tabelinha imortal com  Pelé.

Muito já se escreveu e ainda se escreverá sobre Coutinho, mas há alguns comentários que merecem ser lembrados nessa hora. O primeiro, de Almir Albuquerque, que substituiu Pelé na final do Mundial Interclubes de 1963:

O Couto só pôde jogar muitos anos ao lado de Pelé porque tinha uma inteligência e um futebol acima da média. Aquelas tabelinhas entre eles são a prova disso: trocavam oito a dez passes a curta distância, em alta velocidade, e atravessavam uma floresta de adversários. Muita gente fez tabelinha com o Pelé, mas com aquela eficiência, aquela beleza, só o Coutinho! 

A tabelinha Pelé-Coutinho, apreciada no mundo todo, era uma entidade à parte, um ser único e harmônico que deslumbrou milhões de espectadores em todos os continentes. Um crítico do jornal L’Équipe, de Paris, definiu o que ela transmitia aos amantes do futebol:

É questão de segundos. Os pés mágicos, com rapidez alucinante, diabólica, passam pelos zagueiros espantados. A bola corre junto com Pelé e Coutinho, dominada e possuída. É uma jogada elétrica, avassaladora e irrefreável. A arte pura. 

Finalmente, o jornalista David Jack, do Daily Sketch, muito antes de o termo “matador” ser usado para se referir aos artilheiros, definiu assim o centroavante do Santos ao vê-lo em ação na vitória de 4 a 2 sobre o Sheffield, na Inglaterra, em 1962:

Coutinho é a mescla perfeita do artista da bola e do goleador assassino.

Um homem gentil, mas irreverente, de frases e atitudes corajosas. Tão santista que não trocava a camisa com o adversário e nem saía de casa se o Alvinegro perdia. Assim era Coutinho. Era não, é. Sua história, seu exemplo, seu espírito permanecerão, para sempre, ao lado do Santos e do futebol brasileiro. Coutinhos não morrem.