Coutinho, o Rei da Pequena Área

Coutinho, o Rei da Pequena Área

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória

Foi em Piracicaba, cidade do Interior de São Paulo, a 178 quilômetros da capital, que 11 de junho de 1943, um domingo de outono, veio ao mundo um garoto que seria um dos melhores centroavantes que o futebol já viu. No batismo, recebeu o nome Antônio Wilson Honório, mas, como era pequenininho e a mãe o chamava de coto de gente, virou Coutinho, aquele nascido para ser o Rei da Pequena Área, o parceiro ideal do Rei Pelé.

Após os primeiros contatos com a bola, aquele garoto espantaria a todos pela arte apurada e pela frieza na pequena área. Era um gênio, sem dúvida. Mostrou isso no Palmeirinha de Piracicaba e, aos imberbes 14 anos, não se inibiu nos treinos entre os cobras do Santos.

Era um camisa nove nato, sem dúvida. Talentoso, dotado de um raciocínio rápido, preciso nos arremates leves e certeiros. Quando iniciou sua carreira no Santos, o centroavante titular era o seu amigo Paulo César de Araújo, o saudoso Pagão, que, segundo Coutinho, foi um dos maiores jogadores que ele viu atuar no futebol brasileiro.

Mas Pagão se machucava demais, e logo o seu lugar foi tomado pelo menino atrevido vindo do Interior. Assim, Coutinho se tornou o jogador mais jovem a atuar no Santos. Estreou aos 14 anos e 11 meses, em 17 de maio de 1958, marcando um gol na goleada de 7 a 1 sobre o Sírio-Libanês, em Goiânia.

Defendeu o Santos de 1958 a 1967 e de 1969 a 1970, fazendo 457 partidas e marcando 368 gols, o que faz dele o terceiro maior artilheiro do clube. Participou das conquistas mundiais do Santos em 1962 e 1963 e também seria o titular da vitoriosa Seleção Brasileira na Copa de 1962, no Chile, caso não tivesse se machucado às vésperas da competição. Pela Seleção fez 13 partidas e marcou seis gols.

Além dos indiscutíveis méritos pessoais, Coutinho sempre será reconhecido por ter formado, ao lado de Pelé, uma parceira sem igual no futebol. Juntos imortalizaram a famosa tabelinha, para desespero dos zagueiros adversários.

A última vez em que vestiu a gloriosa camisa praiana foi em 21 de novembro de 1970, sábado, no Parque Antártica, em um empate sem gols com o América do Rio de Janeiro, pela Taça de Prata. Naquele dia o Santos foi escalado pelo técnico Antoninhio Cejas (depois Agnaldo), Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel Camargo e Turcão; Clodoaldo e Léo Oliveira; Árlem, Edu (Coutinho), Pelé e Abel.

O que disseram sobre Coutinho 

Coutinho é um provocador de oportunidades, de onde nascem os gols, às vezes dele próprio, mas, em maior número, gols de seus companheiros. Porque Coutinho, sem um centavo de egoísmo, procura ser útil aos colegas, certo que o todo e a unidade são os componentes da força geradora dos triunfos.
Adriano Neiva, o De Vaney, jornalista e escritor

Coutinho foi o goleador que jogou mais bonito, pois ele colocava a bola fora do alcance do goleiro, de mansinho, sem que ela tocasse na rede. Era um fenômeno. 
Zito, bicampeão mundial do Santos e da Seleção Brasileira.

Coutinho toureava os zagueiros como ninguém, com habilidade de dar um toque para tirar o marcador da jogada. Era ele de um lado e o beque de outro, em curtíssimo espaço dentro da área. Ele não precisava de muito para driblar. Se não fizesse o gol com a categoria de sempre, iria municiar Pelé, que devolvia com precisão. Daí surgiram as famosas tabelinhas. 
Orlando Duarte, jornalista e escritor

O toque sutil e inteligente, o passe certo na corrida ou lançamento em bola parada, a deslocação sem bola, ou a melhor colocação para recebê-la; o gol “envenenado”, capaz de desmoralizar o melhor goleiro do mundo, como os muitos que surgiram à sua frente, fizeram de Coutinho um dos mais requisitados atacantes do futebol mundial. A França ainda lembra com carinho seu estilo, os torcedores do Benfica sempre perguntam por ele, os de todo mundo lamentam que Coutinho tenha abandonado nossos estádios tão cedo, deixando as imortais lembranças do seu futebol arte. 
Constantino Ranieri, jornalista.

Nós viajávamos muito juntos, jogávamos juntos e conhecemos um pouco do mundo e das diferentes culturas. Mas o que eu tenho que agradecer a ele é que 50% dos gols que eu fiz no Santos foram em parceria com ele. Na tabela e no fato de ele me conhecer. Nessa vida, ninguém faz nada sozinho, se não tivesse parceiros à altura, nada aconteceria. 
Pelé

Coutinho faleceu em Santos, após sofrer um infarto em decorrência de diabetes e hipertensão arterial, em 11 de março de 2019. O velório foi realizado no Salão de Mármore do Santos e o carro funerário, com seu corpo, percorreu as ruas laterais da Vila Belmiro, sendo muito aplaudido pelos torcedores em sua última passagem pelo estádio que tantas vezes apreciou sua arte e sua frieza diante dos goleiros.