Copa do Brasil 2010: o Santos que fez o Brasil sonhar

Gabriel Pierin, do Centro de Memória

Era um Santos que jogava para frente. Tinha técnica, talento, velocidade e uma quantidade impressionante de jogadores capazes de decidir uma partida. Neymar, Ganso, Robinho, André e companhia formavam um conjunto que recuperava uma tradição muito santista: a de transformar futebol em espetáculo.

Na Copa do Brasil de 2010, o time comandado por Dorival Júnior fez isso à sua maneira. Marcou gols em todos os 11 jogos e terminou a competição com 39, média de 3,54 por partida. Também sofreu 15, é verdade, mas essa estatística ajuda menos a definir suas fragilidades do que a dimensionar o tipo de futebol que praticava. Era uma equipe que acreditava na sua capacidade de atacar, que não se intimidava quando precisava buscar um resultado e que tinha recursos individuais e coletivos para transformar uma partida.

A campanha começou em 24 de fevereiro, em Campo Grande, diante do Naviraiense. O Santos não fez uma grande partida, mas venceu por 1 a 0, gol de Marquinhos aos 36 minutos do segundo tempo. O resultado deu ao time sul-mato-grossense a esperança de que pudesse surpreender na Vila Belmiro.

Antes do jogo de volta, os jogadores do Naviraiense foram à praia. Muitos nunca tinham visto o mar. Também conheceram o Memorial das Conquistas e ficaram impressionados com a coleção de troféus do Santos. Quando entraram em campo, porém, a realidade foi outra. Ao fim do primeiro tempo, o Santos já vencia por 6 a 0. Na segunda etapa, marcou mais quatro e construiu uma goleada de 10 a 0, daquelas que remetiam aos grandes placares dos tempos de Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe. André marcou três vezes. Neymar fez o sétimo depois de driblar toda a defesa adversária, enquanto Robinho completou o espetáculo com um gol por cobertura.

O Remo, em Belém, foi o adversário seguinte. E ali o Santos conseguiu sua única vitória realmente convincente fora de casa: 4 a 0, com dois gols de Neymar e dois de André. A partir dali, a competição começaria a exigir ainda mais daquele grupo, que já dava sinais de possuir algo fundamental para uma campanha de campeão: a capacidade de responder aos desafios.

Nas oitavas de final, a partida de ida coincidiu com o aniversário de 98 anos do Santos. Em 14 de abril, a Vila Belmiro recebeu o Guarani e viu uma das maiores exibições individuais de Neymar. O garoto de 18 anos, já apontado como o melhor jogador brasileiro, marcou cinco gols na goleada por 8 a 1.

Com a classificação praticamente definida, Dorival Júnior levou um time misto a Campinas. O Guarani venceu por 3 a 2, mas Breitner e Alex Sandro marcaram para o Santos e a vaga estava assegurada.

A partir das quartas de final, a Copa ganhou outra dimensão. No Mineirão, em 28 de abril, o Santos encontrou o Atlético Mineiro de Vanderlei Luxemburgo diante de 46 mil torcedores. Diego Tardelli colocou os donos da casa em vantagem por 2 a 0, mas o Santos não se desorganizou. Robinho marcou aos 44 minutos do primeiro tempo e manteve o time vivo. Tardelli voltou a marcar aos sete da segunda etapa, mas Edu Dracena, aos 37, diminuiu para 3 a 2.  Era justamente o tipo de situação em que aquele Santos se mostrava mais forte: quando precisava reagir.

Uma semana depois, em 5 de maio, 14.245 torcedores lotaram o Urbano Caldeira. Na Vila, o Santos tomou a iniciativa desde o início. André e Neymar fizeram 2 a 0. Correa diminuiu no fim do primeiro tempo, mas Wesley marcou aos quatro minutos da etapa final e fechou o placar em 3 a 1.

O Santos estava na semifinal. E o adversário seria o Grêmio. O primeiro confronto, em 12 de maio, no Estádio Olímpico, reuniu cerca de 40 mil pessoas e parecia encaminhar-se para uma noite tranquila para os santistas. Em apenas 20 minutos, André marcou duas vezes e ainda houve tempo para as tradicionais dancinhas nas comemorações.

Só que o Grêmio reagiu de maneira espetacular. Aos 30 minutos do segundo tempo, o Santos perdia por 4 a 2. A empolgação tomou conta do estádio e até os locutores gaúchos entraram no clima. Um deles dizia que “o arpão do Grêmio está gravado nas costas da baleia”; outro provocava, afirmando que o Santos poderia dançar “o elimination”.

Mas aquele Santos tinha Ganso. Aos 37 minutos, o meia encontrou Robinho com um passe primoroso. O atacante dominou no peito e bateu para as redes, reduzindo a derrota para 4 a 3. O resultado ainda era adverso, mas o gol tinha enorme importância para o segundo jogo.

Na Vila Belmiro, uma semana depois, o Santos voltou a mostrar por que havia se tornado a grande atração do futebol brasileiro. Diante de 13.896 torcedores, vestindo um uniforme inteiramente branco que parecia recuperar a atmosfera dos grandes momentos de sua história, o time venceu por 3 a 1, com golaços de Ganso, Robinho e Wesley. O Grêmio estava eliminado.

A torcida santista aproveitou para responder às provocações da primeira partida. Se o adversário era o “Imortal”, na Vila, diziam os santistas, os imortais eram enterrados vivos.

A decisão contra o Vitória parecia, então, o último passo de uma campanha que já havia produzido grandes momentos. Na primeira partida, na Vila, o Santos dominou e venceu por 2 a 0, gols de Neymar e Marquinhos. Poderia ter construído vantagem maior, mas o resultado levava para Salvador uma decisão ainda aberta.

Na quarta-feira, 4 de agosto, cerca de 35 mil torcedores ocuparam o Barradão. Para o Vitória, estava em jogo o título mais importante de sua história. Para o Santos, a possibilidade de conquistar pela primeira vez a Copa do Brasil e completar a coleção de títulos nacionais que disputara. Dorival Júnior escalou Rafael, Pará, Edu Dracena, Durval e Alex Sandro; Arouca, Wesley e Ganso; Neymar, Robinho e André.

O primeiro tempo foi de muita disputa e poucas oportunidades. Aos 44 minutos, Edu Dracena subiu de cabeça e marcou. O gol provocou uma comemoração de título. E não era exagero: com aquele resultado, o Vitória precisaria vencer por 4 a 1 para impedir a conquista santista.

O time baiano voltou disposto a mudar a história da decisão. Pressionou, encontrou espaços e chegou à virada, com o 2 a 1 aos 32 minutos do segundo tempo. O Santos passou a ter dificuldades para sair de seu campo, enquanto o Vitória ainda buscava os gols de que precisava.

Mas a vantagem construída na Vila havia sido suficiente. Quando Carlos Eugênio Simon apitou o fim, o Santos era campeão da Copa do Brasil pela primeira vez. E o título traduzia muito bem a força daquele conjunto. Em 11 partidas, foram 39 gols, uma média de 3,54 por jogo. Neymar, aos 18 anos, terminou como artilheiro da competição, com 11 gols. Paulo Henrique Ganso, aos 20, foi escolhido pela Confederação Brasileira de Futebol como o melhor jogador do torneio.

Não era apenas um time de grandes talentos reunidos no mesmo elenco. Havia uma identidade. Neymar desequilibrava, Ganso pensava o jogo, Robinho acrescentava experiência e qualidade, André aparecia para marcar gols e outros jogadores surgiam nos momentos decisivos. Wesley, Marquinhos, Edu Dracena, Alex Sandro e tantos outros também deixaram sua marca naquela campanha.

Foi justamente essa combinação que fez daquele Santos um dos grandes times brasileiros de 2010. Um time capaz de golear por 10 a 0, marcar cinco vezes com um garoto de 18 anos, sobreviver a uma virada no Olímpico, reagir diante do Atlético Mineiro e decidir uma semifinal com gols de seus principais talentos.

Naquela Copa do Brasil, o Santos não precisou escolher entre jogar bonito e ser competitivo. Fez as duas coisas. Encantou, sofreu, reagiu e, principalmente, venceu. Na noite de 4 de agosto de 2010, em Salvador, o futebol que havia feito o Brasil sonhar ganhou uma taça.

A primeira Copa do Brasil do Santos

O troféu está no Memorial das Conquistas da Vila Belmiro, ao lado de tantos outros capítulos da história santista, esperando para contar mais uma vez a história daquela geração que, por alguns meses, fez parecer que o futebol podia ser novamente uma festa.

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