Conmebol 1998, um título na garra

Conmebol 1998, um título na garra

Por Odir Cunha, do Centro de Memória

A conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1997 deu ao Santos o direito de disputar, no ano seguinte, a VII Copa Conmebol, competição que reunia algumas forças emergentes do futebol sul-americano.

Há 29 anos sem um título internacional oficial – desde junho de 1969, quando bateu a Internazionale, em Milão, e conquistou a Recopa Mundial –, o Alvinegro Praiano, formado por uma mescla de veteranos e novatos e treinado pelo técnico Émerson Leão, iniciou a disputa eliminatória nas oitavas de final, contra o então pouco conhecido Once Caldas, da Colômbia.

Na Vila Belmiro, em 15 de julho, Narciso e Viola marcaram para dar a vitória ao Santos por 2 a 1. Quatro dias depois, em Palo Grande, Colômbia, Jorginho marcou aos oito minutos, mas o Once Caldas virou para 2 a 1 e a decisão ficou para as penalidades, que o Santos venceu por 3 a 2. Como se sabe, cinco anos depois esse mesmo Once Caldas surpreendeu a vários gigantes sul-americanos, entre eles o Santos, e se tornou campeão da Libertadores derrotando o Boca Juniors na final.

Nas quartas o adversário foi a Liga Deportiva Universitária, de Quito, popularmente conhecida como LDU. Como o Once Caldas, na época a equipe equatoriana não era muito conhecida, mas dez anos depois, em 2008, também seria campeã da Copa Libertadores, batendo o Fluminense na final.

Em Casa Blanca, Quito, os santistas Jorginho e Lúcio marcaram no empate de 2 a 2. Seis dias depois, na Vila Belmiro, com um gol de Claudiomiro e dois de Viola, o Alvinegro venceu a LDU por incontestáveis 3 a 0 e se classificou para a semifinal diante do surpreendente Sampaio Corrêa, do Maranhão, campeão da Copa Norte daquele ano.

Invicto, com três vitórias e um empate, o popular time maranhense já havia eliminado o América de Natal, campeão da Copa Nordeste, e o Deportes Quindio, da Colômbia. Seus inflamados torcedores anteviam a primeira grande conquista internacional do “Tricolor de Aço”.

O otimismo dos maranhenses aumentou quando o time dirigido por Julio Espinoza, mesmo com um jogador expulso, conseguiu empatar o jogo de ida em 0 a 0. Naquela melancólica noite de quarta-feira, 9 de setembro, apenas 2.171 torcedores pagaram ingressos na Vila Belmiro.

Um clima bem diferente esperou pelos santistas no estádio Castelão, em São Luís. Nada menos do que 95.720 pessoas – um recorde ainda não superado no Norte do País – se acotovelaram para testemunhar aquele que, acreditavam, seria o maior momento da história do Sampaio Corrêa.
Nunca se comemorou um gol com tal estrondo no Norte do Brasil como o de Ivan, aos 32 minutos do primeiro tempo. O jogador veio de trás, penetrou na defesa santista e bateu colocado na saída de Zetti. Mas aí o Santos reagiu. Lúcio empatou sete minutos depois e, pouco antes de terminar o primeiro tempo, Argel, de cabeça, desempatou a partida.

Na segunda etapa, Eduardo Marques, aos dois minutos, Adiel, aos 20, e Viola, aos 24 definiram a goleada por 5 a 1 que levou o Santos para a grande final com o Rosário Central, da Argentina, time aguerrido que já tinha sido campeão da Conmebol em 1995, quando empreendeu uma virada realmente espetacular contra o Atlético Mineiro.

No Mineirão, lotado, o Rosário foi goleado por 4 a 0. Para ser campeão teria de, no mínimo, devolver o mesmo placar em seu campo e ainda vencer nas penalidades. Parecia impossível, mas foi isso mesmo que aconteceu. Zonzo, o time brasileiro, dirigido por Procópio Cardoso, não conseguiu impedir uma das maiores reviravoltas do futebol, assistida por 43 mil fanáticos rosarinos.

Garra, catimba, violência… e até futebol

Houve de tudo nos dois jogos finais com o catimbeiro Rosário Central, da Argentina. Na noite de 17 de outubro os 14.175 pagantes na Vila Belmiro viram de tudo: garra, catimba, violência… e até futebol.

Cinco jogadores saíram expulsos, entre eles os santistas Viola e Jean. O técnico Leão também recebeu cartão vermelho do árbitro uruguaio José Luis da Rosa. Mas, só no futebol, o Santos foi melhor e deveria ter goleado, não fossem as muitas chances perdidas.

Claudiomiro marcou aos 28 minutos, de cabeça, aproveitando um escanteio, mas a vantagem santista parou por aí. O lateral-esquerdo Athirson ainda teve a oportunidade de ampliar aos 27 minutos da segunda etapa, mas chutou um pênalti para fora.

Em muitos ficou a impressão de que 1 a 0 tinha sido uma vitória insuficiente para garantir o título no inferno de Rosário. Até porque o Santos estaria desfalcado de Viola, seu maior artilheiro, e do experiente Jean.

Leão escalou o time para a batalha no estádio Gigante Arroytio com Zetti, Anderson, Sandro, Claudiomiro e Athirson; Marcos Bazilio, Elder. Narciso e Eduardo Marques; Fernandes (Baiano) e Alessandro (Adiel).

O técnico Edgardo Bauza montou o Rosário Cnetral com Buljubasich, Marra (Cappelletti), Gerbaudo, Cuberas e Jara; Hugo González (Ezequiel González) Daniele, Rivarola e Gaintán; Flores e Maceraeis (Ruiz).

Prevendo um clima hostil, o Santos levou um batalhão de seguranças para a Argentina. Mesmo assim, quando o ônibus santista se aproximou do estádio – tomado por cerca de 50 mil pessoas, sete mil a mais do que a lotação oficial – os torcedores do Rosário tentaram cercá-lo e foi preciso que a polícia local atirasse várias vezes para o alto para limpar o caminho.

As confusões se sucediam e Leão, que já tinha sido agredido gravemente no rosto na final do ano anterior, em Lanús, também na Argentina, ameaçou não colocar o time em campo. Só depois de um atraso de 40 minutos a partida foi iniciada.

O time local buscou tomar a iniciativa, mas o Santos se defendeu bem e ainda conseguiu um ou outro ataque. Apenas com dois reservas de linha no banco, o Alvinegro não podia ter jogadores machucados, mas também não podia evitar as divididas. Assim seguiu a partida, repleta de lances bruscos e intimidações.

Eduardo Marques perdeu a cabeça e foi expulso. Pouco depois o argentino Daniele também apelou e teve a mesma sorte. O árbitro paraguaio Ubaldo Aquino soube usar a sua experiência para levar o jogo até o final.

O Santos se fechava na defesa quando a partida terminou, sem gols. Inflamado, o goleiro Zetti, escolhido como o melhor jogador da final, conclamava os santistas para comemorar um título que foi, sem dúvida, o mais brigado da história do Peixe. Em todos os sentidos.