Ailton Lira jogava como quem toca um instrumento

Ailton Lira jogava como quem toca um instrumento

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória

Em 19 de fevereiro de 1951, uma segunda-feira, nascia em Araras, a 170 quilômetros de São Paulo, um futuro meia armador genial e criativo chamado Aílton Lira da Silva, filho de Lázaro Silva e Gecira Lira.

Desde pequeno o jovem dominava e conduzia a bola com rara habilidade. Canhoto, batia todas as faltas do Cruzeiro, um time amador de sua cidade. Foi lá que, em 1966, o técnico Zé Duarte reconheceu o talento do garoto e o levou para treinar no infantil da Ponte Preta. Lira tinha 15 anos quando assinou o seu primeiro contrato profissional com a “Macaca”.

Em Campinas o rapaz ficou até 1972, jogando ao lado de craques como Nelsinho Baptista, Samuel, Teodoro, Roberto Pinto, Dicá e Manfrini. Depois, partiu para Minas Gerais, indo defender as cores da Caldense, de Poços de Caldas.

O mesmo Zé Duarte que o descobriu em Araras, assumiu como técnico do Santos em 1976 e sugeriu a contratação do meia ao presidente santista Modesto Roma. Na ocasião, o Santos já monitorava o quarto-zagueiro Neto, também da Caldense, mas o time mineiro só liberaria o zagueiro se o Santos contratasse também o meia-armador Aílton Lira, então com 25 anos. No final das contas, ambos vieram e se tornaram titulares do Peixe.

A estreia de Ailton Lira ocorreu em 15 de agosto de 1976, um domingo, na vitória por 2 a 1 sobre XV de Novembro de Jaú, no estádio Zezinho Magalhães, em partida comemorativa do aniversário da cidade. Naquele dia, Toinzinho e Tuca marcaram para o Santos, que foi escalado pelo técnico Zé Duarte com Wilson Quiqueto, Tuca, Vicente, Bianchi e Fernando; Carlos Roberto e Aílton Lira; Manuel Maria (Claudinho), Tata (Babá), Toinzinho e Edu.

Aos poucos, o cerebral meia-armador foi ganhando a confiança do torcedor santista, com golaços em cobranças de faltas e mesmo de pênaltis, formando o meio de campo santista ao lado do consagrado volante Clodoaldo Tavares Santana e do novato Pita.

As cobranças de falta eram mesmo sua marca registrada. Até hoje os torcedores do Peixe não esquecem esses gols marcados por ele com classe e categoria. Sua aparente facilidade para bater na bola, porém, era fruto de muito trabalho. Quando acabavam os treinos da equipe, Lira costumava ficar no gramado cobrando faltas para se aperfeiçoar. Aprimorou-se tanto nesse quesito que nas faltas próximas à área adversária seu nome era aclamado pela torcida. E ele não costumava decepcionar.

Em 1976, depois de terminar em quinto lugar no seu grupo e não se classificar para a fase final do Campeonato Paulista, o Santos estreou no Campeonato Brasileiro derrotando o Caxias, no Pacaembu, por 2 a 1, e Ailton Lira apareceu pela primeira vez como titular em um jogo oficial do Alvinegro, completando o meio de campo formado por Carlos Roberto e Toinzinho. Deu para perceber que o time ficava mais empolgante com ele.

No jogo seguinte, em Florianópolis, o Santos vencia por 3 a 1 quando Lira selou a vitória com um tirombaço de fora da área. Em seguida, venceu o Palmeiras, campeão paulista daquele ano, por 1 a 0, no Pacaembu, e a imprensa passou a chamar o time de “O Novo Santos”. O entusiasmo durou mais dez rodadas. Eliminado, o Alvinegro terminou em 20º lugar entre 54 participantes.

Em 1977 o ano começou melhor para o Santos e para Ailton Lira. Em janeiro a equipe conquistou o tradicional Torneio Hexagonal do Chile e ele marcou quatro gols em cinco jogos, entre eles os dois da vitória de 2 a 0 sobre o River Plate, vice-campeão argentino. Os santistas saíram aplaudidos de campo depois desse clássico sul-americano. Ainda em 1977, em outubro, o Santos ganharia o Torneio Copa Governador Luis Ducoing, em León, no México, também chamado de Triangular do México.

No Campeonato Paulista, iniciado no final de fevereiro, Lira era tratado pela imprensa como uma das poucas referências técnicas do time. Em 10 de abril, um domingo, o Santos venceu o Comercial por 2 a 1, no estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto, perante 9.512 espectadores, e ele marcou os dois gols da virada santista, nenhum de falta ou pênalti. O primeiro, aos 22 minutos do segundo tempo, em uma bomba de fora da área. O gol da vitória veio no finalzinho.

Naquele dia o técnico Urubatão colocou em campo Ricardo, Tereso, Renato, Fausto, Fernando, Carlos Roberto, Toinzinho, Aílton Lira, Nílton Batata, Totonho (Juary) e Bozó (Rodrigues). Para o repórter da Folha de São Paulo que cobriu a partida, “o eficiente futebol e o chute forte de Ailton Lira mais uma vez livraram o Santos de um vexame”.

Maestro dos Meninos da Vila

Em outubro de 1977 Ailton Lira viveu dois momentos marcantes em sua carreira. No primeiro dia do mês participou do jogo de despedida de Pelé, no Giant Stadium, em Nova York, chegando a ceder seu lugar para que Pelé jogasse o segundo tempo pelo Santos. Como se sabe, Pelé atuou a primeira etapa pelo Cosmos e fez o gol de empate da vitória do time norte-americano por 2 a 1.

E em 26 de outubro Lira marcou o gol de número 8.000 da história do Alvinegro Praiano, abrindo o marcador aos 41 minutos da partida em que o Santos derrotou o Fast Clube, em Manaus, por 3 a 1, pelo Campeonato Brasileiro.

Sua experiência e segurança ao reger a equipe eram fundamentais para aquele time que, sob o comando do técnico Chico Formiga, ficou consagrado como os “Meninos da Vila”. Eram garotos promovidos da base, mesclados com alguns jogadores mais tarimbados, como Lira. Um dos novatos, o meia-esquerda Pita, ficou impressionado com a humildade do seu respeitado colega de elenco:

“Eu estava usando a camisa 10 porque o Aílton Lira estava fora da equipe, machucado. Quando ele voltou, eu falei que a 10 era dele. Mas o Aílton me disse que a 10 tinha ficado bem em mim, então ele pegou a camisa 8”.

No longuíssimo Campeonato Paulista de 1978, que só terminou em 28 de junho de 1979 e que deu ao Santos o seu 14º título estadual, Aílton Lira disputou 47 das 56 partidas e marcou oito gols.

Sua última apresentação com a camisa alvinegra ocorreu em 2 de dezembro de 1979, um domingo, na vitória por 3 a 0 sobre o Itabuna, em Itabuna, Bahia. Juary, duas vezes, e Pita, fizeram os gols do jogo. Dirigido por Pepe, o time se apresentou com Mauro, Nelsinho Baptista (Neto), Joãozinho, Fernando e Washington; Gilberto Costa, Aílton Lira (Zé Carlos) e Pita (Toninho Vieira); Nílton Batata, Juary (Claudinho) e João Paulo (Cardim).

Lira, o meia que jogava bola como quem toca um instrumento, fez 182 partidas e marcou 37 gols pelo Santos entre 1976 e 1979. Em 2017 ele voltou ao clube para trabalhar como olheiro para as categorias de base e permaneceu nesse cargo até o fim do ano.

São Paulo e Arábia Saudita

No começo de 1980 Ailton Lira foi negociado com o São Paulo por 6,9 milhões de cruzeiros. Nos seis meses em que defendeu o clube paulistano atuou em 29 partidas – 12 vitórias, 13 empates e quatro derrotas –, marcou nove gols e conquistou o título paulista daquele ano.

Na sequência, atuou pelo Al Nasser, da Arábia Saudita, de 1980 a 1982. De volta ao Brasil, defendeu Guarani, União São João, Comercial de Ribeirão Preto, Portuguesa Santista, Itumbiara/GO e, por último, o Guará, em 1988, no Distrito Federal, onde pendurou as chuteiras e iniciou a carreira de técnico.

Professor Aílton Lira

Técnico de diversos times do Interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, Ailton Lira trabalhou tanto com as categorias amadoras, como com as equipes profissionais. No União São João, Rio Claro e Mogi Mirim ele era o responsável pelos times da base e indicava os melhores garotos para a equipe principal. Em Itumbiara, Caldense, Passos/MG e Independente de Limeira ele comandou o elenco profissional.

Depois de rodar o Brasil, o craque retornou à sua querida Araras, onde realizou um desejo antigo e, em sociedade com seus irmãos, abriu uma loja de peças para caminhões. Aos 69 anos, o maestro que sempre enxergou além da correria e do bate-rebate que se vê hoje no futebol, acha que os meias clássicos, como ele, desapareceram do futebol por culpa dos técnicos, sobretudo dos que lidam com as categorias de base:

“Nós temos esses meias, mas os treinadores não os aproveitam, querem colocar o jogador aberto, correndo. Tem que ser como o Santos, que tem coragem para aproveitar jogadores com esse toque diferenciado.”

Atualmente, Ailton Lira dá aulas de futebol para meninos e meninas no clube Floridiana, em Rio Claro, e é o responsável pela Escolinha Camisa Dez, em Araras, onde vive com sua mulher, Maria Izildinha, e com as filhas Elaine Cristina, Camila e Ariane. Outras duas filhas, Daniele e Tatiane, moram em Indaiatuba e Rio Claro, respectivamente. Lira também já tem 11 netos.

O craque, que na opinião de muitos especialistas, como o apresentador e comentarista Neto, foi um dos melhores cobradores de falta do futebol brasileiro, segue sua vida tranquilo, convicto de que a perfeição nas batidas de falta e nos pênaltis só pode ser conseguida com muita concentração e total dedicação aos treinamentos. E também com certa dose de humildade, característica que marcou sua personalidade dentro e fora do campo.