A Recopa Mundial vencida no simpático País da Bota

Por Guilherme Guarche, Centro de Memória 

Naquela distante terça-feira, 24 de junho de 1969, o Santos três dias após sagrar-se Tricampeão Paulista, foi para Milão, na capital da Lombardia, no norte da Itália se defrontar com a forte equipe da Internazionale. 

O cenário desse encontro era o Estádio San Siro, também chamado de Giuseppe Meazza, que recebeu naquela noite distante 44.774 pagantes para ver o Alvinegro superar a equipe milanesa pelo placar de 1 a 0 e conquistar a Recopa dos Clubes Campeões Intercontinentais de 1968. 

Ao vencer a Recopa Sul-Americana 1968/69, pela Zona Sul-Americana, graças ao empate em 1 a 1, entre o Peñarol e o Racing, o Santos pode participar da final da Recopa no Velho Continente Europeu diante do campeão da Zona Europeia.  

Na Zona Sul-Americana participaram as equipes do Peñarol do Uruguai e o Racing da Argentina, já na Zona Europeia as equipes foram a Inter de Milão e o Real Madrid. 

A equipe do Real Madrid seria a concorrente direta que deveria enfrentar o Alvinegro da Vila Belmiro, mas que acabou desistindo do confronto e a vaga passou para a equipe chamada por seus fanáticos torcedores de La Beneamata (A Bem Amada). 

A poderosa equipe de Milão era a bicampeã intercontinental em 1964/65, e um adversário à altura do Peixe, que tinha um prestígio imenso em todo o mundo e era muito respeitado por todos os times do Planeta. 

O desenrolar da partida 

A Internazionale começou melhor e dominou a maior parte do primeiro tempo. Pelé, acompanhado de perto por Bedin, pouco criou. O Santos não conseguia se entrosar no ataque e a maior chance na etapa inicial foi um chute de longa distância de Edu.

Aproveitando-se do nervosismo santista, a Inter se lançou ao ataque e construiu boas chances. Aos 40 minutos Rildo cometeu falta em Jair da Costa. Corso cobrou pelo alto e Laércio, que substituía Cláudio, machucado, fez boa defesa. Dois minutos depois, Clodoaldo bloqueou um cruzamento perigoso do esquadrão italiano. 

O zagueiro Djalma Dias voltava a jogar bem e foi o grande destaque do time no primeiro tempo, período em que a defesa brasileira segurou o resultado e a Internazionale não soube aproveitar sua superioridade. 

O time de Vila Belmiro voltou melhor para o segundo tempo. Logo no começo Pelé passou por dois marcadores e chutou forte da entrada da área. A bola bateu no rosto do goleiro Bordon e na sobra Burgnich aliviou para os italianos. 

O trio de ataque Edu, Toninho e Abel passou a levar perigo. Aos nove minutos Edu fez uma jogada sensacional. Driblou três adversários e quase marcou com um chute potente. Um minuto depois veio o gol santista. 

O lance começou a ser costurado em um escanteio. Abel cobrou e, na sobra, Poli isolou, chutando de bico. Rildo dominou e entregou para Edu, que driblou Guarnieri antes de entregar para Abel no bico da área. O ponta entregou para Negreiros. Habilidoso, o meia tentou dar um chapéu em Cella e foi segurado pelo pescoço. O árbitro apitou falta. Pelé ajeitou carinhosamente e bateu forte. O goleiro Bordon não segurou e Toninho Guerreiro aproveitou o rebote quando o relógio marcava 12 minutos da etapa complementar. 

O Santos fazia 1 a 0 e calava o estádio. A partir daí, o domínio foi santista. O Santos soube administrar a vantagem até o término da partida, e o árbitro ainda deixaria de marcar um pênalti claro sobre Pelé.

O gol marcado pelo centroavante Toninho Guerreiro foi também o seu último dos 279 gols marcados com a camisa do Peixe na sua derradeira apresentação defendendo o clube pelo qual disputou 368 partidas. Toninho é o 4º maior artilheiro no ranking dos artilheiros da Vila. 

O triunfo coroava a supremacia santista na década de 1960. A equipe base campeã da Recopa, escalada por Antoninho, foi formada por Cláudio (Laércio), Carlos Alberto, Ramos Delgado, Djalma Dias e Rildo; Clodoaldo e Negreiros; Toninho, Edu, Pelé e Abel.  

Na equipe adversária jogou o ponta-direita, o brasileiro Jair da Costa que foi Campeão Mundial pela Seleção Brasileira, no Chile, em 1962, na reserva do craque Mané Garrincha. Jair em 1972 era contratado pelo Santos pelo qual disputou 57 jogos e marcou 11 gols ajudando o Peixe na vitoriosa campanha do Campeonato Paulista de 1973.  

Com medo de nova derrota o time italiano não quis jogar a segunda partida 

As duas partidas do torneio estavam a princípio marcadas para serem realizadas no mês de dezembro de 1968, porém foram transferidas para o ano de 1969.  

A segunda partida que seria realizada no Brasil, nunca aconteceu já que o time italiano, alcunhado também de Il Biscione (A Grande Cobra), alegou problemas de calendário e assim foi postergando a realização do encontro, mesmo tendo sido oferecido a eles pela diretoria do Peixe, uma segunda partida em Nápoles, com o que eles não concordaram.

Segundo apurou-se junto à imprensa italiana é que a Inter temia em sofrer nova derrota para o Peixe, pois como havia perdido a primeira partida dentro de seus redutos, perderia também a segunda disputa, fosse na Itália ou no Brasil, já que consideravam o Santos como o melhor time do futebol mundial.

O bonito troféu ganho pelo Alvinegro referente a Recopa Mundial 1968/69 encontra-se em exposição no Memorial das Conquistas, no Estádio Urbano Caldeira, na Vila mais famosa do mundo.

Após essa conquista o Peixe passou a ostentar três estrelas douradas sobre o seu escudo simbolizando as três conquistas mundiais. Essa honra durou alguns anos somente, pois a diretoria santista na época presidida por Vasco José Faé preferiu deixar apenas as duas estrelas douradas por entender que a conquista da Recopa Mundial tinha significado diferente dos mundiais ganhos pelo Peixe nos anos de 1962/63.

No mês de junho de 2019, a diretoria santista com efetiva participação do Centro de Memória, realizou um evento especial nas dependências do Memorial das Conquistas em comemoração aos 50 anos da memorável conquista da Recopa Mundial na Itália, na festividade estiveram os craques Emerson Marçal, Clodoaldo, Mané Maria, Edu, Negreiros e Abel que jogaram a partida na Itália.