2 Paulistas no mesmo dia!

2 Paulistas no mesmo dia!

Por Odir Cunha, do Centro de Memória

Na década de 60 o campeonato estadual era a competição mais cobiçada pela maioria dos times brasileiros. A Taça Brasil já existia, mas só o campeão de cada estado podia disputá-la e assim concorrer ao título brasileiro. Os demais sonhavam com o título regional, em campeonatos tradicionais e cheios de rivalidade. Pois o Santos, campeão da Taça Brasil em 1961 e 1964, também conseguiu o título paulista nesses dois anos, ambos obtidos no mesmo dia 13 de dezembro.

Em 1961 o Santos assumiu a ponta e terminou o primeiro turno na frente, perseguido pelo Palmeiras. Numa de suas melhores exibições, goleou o São Paulo, no Pacaembu, por 6 a 3. Em um mês, de 13 de agosto a 13 de setembro, o Alvinegro fez sete jogos, venceu todos e marcou 42 gols, media de seis por partida.

O título só foi ligeiramente ameaçado com a derrota para o Palmeiras, por 3 a 2, em 29 de novembro, noite de quarta-feira em que o Pacaembu recebeu 60.801 torcedores e bateu o recorde de renda, com 8,3 milhões de cruzeiros. Mas foi só um tropeço.

Em seguida, em dois jogos na Vila Belmiro, o Santos empatou com o Corinthians por 1 a 1 e venceu o Noroeste por 4 a 2. Depois foi à Piracicaba e goleou o XV por 7 a 2, com quatro gols de Pelé, dois de Coutinho e um de Tite. Com três pontos e três vitórias de vantagem sobre o Palmeiras, bastaria um empate contra a Ferroviária, na noite de quarta-feira, 13 de dezembro, na Vila, para assegurar o sexto título paulista.

O técnico Lula escalou o time com Laércio, Lima, Mauro e Dalmo; Calvet e Zito; Dorval, Tite, Coutinho (Depois Pagão), Pelé e Pepe. A boa equipe da Ferroviária, treinada por José Agnelli, jogou com Toninho, Ismael, Antoninho e Jurandir; Dudu e Rodrigues; Peixinho, Laerte, Parada (depois Melão), Bazzani e Beni. Destes jogadores, Ismael e Peixinho jogariam no Santos, Dudu no Palmeiras e Parada no Bangu.

Mas, naquela noite inspirada, o Santos não deu sopa para o azar. Pelé aos 11 e Tite aos 15 minutos construíram o placar do primeiro tempo. No segundo, Pagão fez 3 a 0 aos cinco minutos, Beni diminuiu aos 12, Pelé fez 4 a 1 aos 19, Pepe elevou para 6 a 1 aos 21 e 34 minutos e Peixinho marcou o segundo da Ferroviária aos 43 minutos. Um ótimo público de 23.319 torcedores compareceu ao Urbano Caldeira, proporcionando o recorde de arrecadação do estádio, com 2.267.850 cruzeiros.

Naquele ano a Ferroviária se meteu entre os grandes e terminou o campeonato na quinta posição, com 38 pontos, cinco a mais do que o Corinthians. O Santos, que na última rodada ainda goleou o São Paulo por 4 a 1, na Vila, chegou a 53 pontos – três a mais do que o Palmeiras –, 113 gols a favor e 33 contra, saldo de 80 gols. Pelé foi o artilheiro da competição, com 47 gols.

Em 64 título veio na última rodada

Em janeiro de 1964 o Santos ganhou a Taça Brasil de 1963, tornando-se tricampeão brasileiro; em maio conquistou o seu terceiro Torneio Rio-São Paulo e em julho, já sem a dupla de zaga Mauro e Calvet e desfalcado de Pelé, Coutinho e Mengálvio, foi eliminado nas semifinais da Copa Libertadores. Com tudo isso, se empenhou por cinco meses no Campeonato Paulista, do início de julho a meados de dezembro, e chegou à última rodada na dependência de um empate para ser campeão.

A disputa foi das mais renhidas. No último jogo do primeiro turno, Santos e Corinthians, empatados na liderança, enfrentaram-se no Pacaembu. O duelo terminou 1 a 1 e o goleiro Heitor pegou um pênalti cobrado por Pelé, o suficiente para ser entrevistado por Hebe Camargo, da TV Record, no programa de maior audiência das noites de domingo. Criou-se a expectativa de que naquele ano o alvinegro da capital finalmente sairia da fila que já durava nove anos.

A disputa dos alvinegros prosseguiu no segundo turno, mas em novembro o Santos claudicou em três partidas e ficou para trás: perdeu para o Palmeiras por 3 a 2, no Pacaembu; empatou com a Ferroviária em 0 a 0, em Araraquara, jogo em que Pelé chutou um pênalti para fora, e foi goleado pelo Guarani, em Campinas, por 5 a 1.

Líder, o alvinegro paulistano parece ter sentido a pressão, pois perdeu dois jogos seguidos: 4 a 2 para a Portuguesa e 4 a 1 para o Palmeiras. Enquanto isso, ferido em seus brios, o Alvinegro Praiano descontou no Botafogo de Ribeirão Preto, massacrado por lendários 11 a 0, com oito gols de Pelé, e prosseguiu vencendo os jogos restantes.

Na antepenúltima rodada Santos e Corinthians se encontraram novamente no Pacaembu e novamente empatados na liderança. Dessa vez, porém, não houve Heitor que desse jeito. O Alvinegro Praiano goleou por 7 a 4, com quatro gols de Pelé e três de Coutinho.

Na rodada seguinte, o Santos goleou o São Bento por 6 a 0, na Vila Belmiro, e ficou dependendo de ao menos um empate na última partida, contra a Portuguesa, também na Vila, para comemorar seu oitavo título paulista. Uma derrota e os dois times ficariam com o mesmo número de pontos, o que forçaria a realização de um jogo desempate.

No domingo chuvoso, 17.197 torcedores compareceram ao Urbano Caldeira para assistir ao grande jogo. O técnico Lula escalou o Santos com Gylmar, Ismael, Modesto e Lima; Zito e Haroldo; Toninho, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. A Portuguesa de Desportos, dirigida por Aymoré Moreira, jogou com Orlando, Jair Marinho, Ditão e Edilson; Pampolini e Wilson Silva; Almir, Dida, Henrique, Nair e Ivair. Na arbitragem, o árbitro carioca Armando Marques.

Depois de um primeiro tempo sem gols, Pepe acertou uma bomba aos oito minutos e colocou o Santos na frente. Toninho Guerreiro ampliou aos 23 e alguns santistas já começaram a comemorar. Mas a Portuguesa reagiu e empatou em dois minutos: aos 31 com o zagueiro Ditão e aos 32 com um belo gol de cabeça de Ismael, só que contra a meta de Gylmar. Ismael ainda estava desolado quando Pepe acertou outra pancada em cobrança de falta e fez o terceiro gol santista, definindo a vitória por 3 a 2.

O Santos se sagrou campeão com 44 pontos ganhos, 20 vitórias, 95 gols a favor e saldo de 48 gols. Pelé, com 34 gols, foi o artilheiro do Paulista pela oitava vez consecutiva. Ao perder na última rodada, a Portuguesa terminou com 40 pontos, na terceira posição, pois foi superada pelo Palmeiras, com 41. O Corinthians ficou em quarto, com os mesmos 40 pontos, mas saldo de gols inferior ao da Portuguesa.

Quanto ao Santos, mostrou mais uma vez, além do talento indiscutível de seus jogadores, uma garra e uma personalidade impressionantes. Depois de goleado pelo Guarani, o time só venceu até o final do campeonato, marcando 35 gols em seis partidas, com média de 5,83 gols por jogo.