Gabriel Pierin, do Centro de Memória
Na fria noite de quinta-feira, 28 de junho de 1979, nos primeiros dias do inverno, o Morumbi recebeu 80 488 espectadores para uma decisão que se tornaria histórica. Em campo, um Santos jovem, desacreditado por muitos e marcado por seguidos desfalques, enfrentava o São Paulo, campeão brasileiro do ano anterior, na última partida do Campeonato Paulista. Ao fim de uma noite dramática, o time santista, derrotado por 2 a 0 no tempo normal, suportaria 30 minutos de prorrogação sem sofrer gol e, graças ao critério de desempate que o favorecia — o maior número de gols marcados no terceiro turno, 21 ao todo —, levantaria a taça de campeão paulista pela 14ª vez.
Aquela conquista, porém, não se explica apenas pelos noventa minutos finais. Ela foi construída ao longo de três partidas disputadas no estádio do adversário, em uma sequência de tensão, resistência e talento que revelou ao futebol brasileiro a primeira geração dos Meninos da Vila. O clássico entre Santos e São Paulo, que o jornalista Tomás Mazzoni, de A Gazeta Esportiva, batizara de San-São em 1956, ganharia naquele junho de 1979 um de seus capítulos mais emblemáticos.
Primeiro jogo: vitória santista no Morumbi
O primeiro confronto da decisão foi disputado na quarta-feira, 20 de junho. Desde o apito inicial, a partida foi jogada sob alta tensão. O Santos, desfalcado de cinco titulares, enfrentava um adversário mais experiente e, para piorar, saiu atrás no placar.
Aos 18 minutos do primeiro tempo, o São Paulo abriu a contagem. Dario Pereyra cruzou da esquerda e o irreverente Sérgio Bernardino, o Serginho Chulapa, apareceu para cabecear para as redes. O goleiro santista Flávio Edmundo Martins Lima, gaúcho, ainda inseguro em sua afirmação no time, nada pôde fazer. Anos mais tarde, em 2003, o próprio Serginho defenderia o Santos; até hoje, permanece como o maior artilheiro da história do São Paulo, com 242 gols.
O gol tricolor, porém, não desmontou o Santos. Aos 26 minutos da primeira etapa, surgiu o empate. José Carlos do Nascimento, o Zé Carlos, encontrou Juary Jorge dos Santos Filho, então com 20 anos, na entrada da meia-lua. O garoto dominou, arrancou com velocidade e finalizou na saída de Waldir Peres, restabelecendo a igualdade e reacendendo a confiança santista.
O gol incendiou a torcida alvinegra no estádio são-paulino. Em pleno reduto tricolor, o 12º jogador santista se fez ouvir, empurrando a equipe como se o Morumbi fosse extensão da Vila Belmiro. Time e arquibancada passaram a jogar juntos, movidos por um mesmo desejo.
A virada veio aos nove minutos do segundo tempo, em um lance que ficaria na memória. Edivaldo Oliveira Chaves, o Pita, também com 20 anos, recebeu a bola pela direita, aplicou um drible curto e seco em Tecão, que tombou no gramado, e bateu de canhota para o fundo das redes. O golaço colocou os torcedores santistas de pé e garantiu ao Peixe a vitória por 2 a 1.
Naquele primeiro duelo, o Santos venceu com Flávio, Nelsinho Baptista, Joãozinho, Antônio Carlos e Gilberto Sorriso; Toninho Vieira, Zé Carlos e Pita; Claudinho, Juary e João Paulo. O público presente foi de 88 316 espectadores.
O quase título e o gol que adiou a festa
Quatro dias depois, no domingo, 24 de junho, o Santos voltou ao Morumbi com a possibilidade real de encerrar a disputa. A torcida santista desceu em peso e lotou o estádio com a convicção de que, naquele dia, o enorme troféu tomaria o caminho da serra rumo a Santos.
Aos 20 minutos do primeiro tempo, o camisa 10 santista, Pita, foi derrubado por Tecão dentro da área. O árbitro Márcio Campos Sales marcou o pênalti. Coube ao zagueiro Antônio Carlos, substituindo o lesionado Joãozinho, a responsabilidade da cobrança. Waldir Peres, no entanto, defendeu. Antônio Carlos morreria em 6 de agosto de 2012, na capital paulista.
Mesmo com o pênalti desperdiçado, o Santos seguiu melhor e encontrou o gol aos 42 minutos da etapa inicial. Marcelo Carlos Monteiro da Silva, o Célio, atacante que completaria 20 anos no último dia daquele ano, recebeu passe de Pita, invadiu a área e marcou o gol que, por longos minutos, pareceu ser o do título.
Mas o futebol, às vezes, prefere prolongar o drama. Quando a torcida praiana já se preparava para a festa, o ponta-esquerda são-paulino Zé Sérgio surgiu aos 43 minutos do segundo tempo para empatar a partida e silenciar a massa alvinegra. O gol adiava a comemoração e obrigava a realização de uma terceira partida.
Naquele confronto, o árbitro anulou corretamente dois gols de Serginho Chulapa: o primeiro porque o atacante conduziu a bola com a mão; o segundo por impedimento.
Desfalcado de vários titulares lesionados e sem Zé Carlos e João Paulo, suspensos pelo terceiro cartão amarelo, o Santos atuou com Flávio, Nelsinho Baptista, Joãozinho, Antônio Carlos e Gilberto Sorriso; Toninho Vieira, Rubens Feijão e Pita; Claudinho, Juary e Célio. O público foi de 115 155 espectadores, número exato de uma tarde em que a festa santista ficou suspensa por um único gol.
A noite decisiva
A finalíssima foi disputada quatro dias depois, em 28 de junho. O técnico Francisco Ferreira de Aguiar, o Formiga, seguia sem poder contar com vários titulares importantes. Estavam fora o goleiro Vitor, titular durante praticamente todo o campeonato, além de Joãozinho, Clodoaldo, Aílton Lira e João Paulo.
Para a decisão, o Santos entrou em campo com Flávio, Nelsinho Baptista, Antônio Carlos, Neto (Fernando) e Gilberto Sorriso; Zé Carlos, Toninho Vieira e Pita; Nilton Batata, Juary e Claudinho.
O São Paulo abriu o placar aos 26 minutos do primeiro tempo, com Zé Sérgio, e ampliou aos cinco minutos da etapa complementar, com Neca. A derrota santista por 2 a 0 levava a decisão à prorrogação, dividida em dois tempos de 15 minutos.
Foi então que a noite se transformou em provação. Os dois times já carregavam o peso físico e emocional de três confrontos duríssimos. Cansados, passaram a se vigiar mais do que a atacar, à espera de uma falha, de um espaço, de um erro do adversário. O Santos, por sua vez, jogava também com o regulamento: sabia que o empate na prorrogação bastaria para transformá-lo em campeão.
A torcida santista viveu aqueles 30 minutos entre a agonia e a esperança, como se cada segundo custasse mais do que o anterior. Até que o árbitro João Leopoldo Ayeta — o mesmo que apitara o primeiro jogo da decisão — decretou o fim da partida. E então o Morumbi explodiu. O foguetório tomou as arquibancadas, a comemoração atravessou a madrugada e se espalhou não apenas por Santos, mas por todo o território nacional. O título estava conquistado.
Um longo campeonato
A conquista coroava uma campanha extensa e desgastante. Disputado em três turnos, o Campeonato Paulista de 1978/1979 foi um dos mais longos da história da competição. Começou em agosto de 1978, em razão da Copa do Mundo de 1978, na Argentina, e só terminou quase um ano depois.
Ao longo do torneio, o Santos disputou 56 partidas, com 26 vitórias, 16 empates e 14 derrotas. Marcou 77 gols e sofreu 47. Números que ajudam a dimensionar o tamanho da caminhada de um time jovem, instável em alguns momentos, mas capaz de amadurecer no momento decisivo.
O goleiro Flávio só assumiu a titularidade na reta final, a partir da vitória por 3 a 1 sobre o Guarani, na semifinal. Até então, o titular era o mineiro Vitor, que jogara praticamente todo o campeonato, mas se contundiu na partida anterior ao duelo contra o Guarani e não retornou mais ao time.
O grande nome ofensivo da campanha foi Juary Jorge, artilheiro máximo do campeonato com 29 gols. O ponta-esquerda João Paulo foi o segundo maior goleador santista, com 16 gols.
A origem dos Meninos da Vila
Foi naquela campanha que nasceu a expressão Meninos da Vila. O autor da frase foi o próprio técnico Chico Formiga. Mineiro de Araxá, ele explicaria mais tarde a origem do apelido: “Sou mineiro de Araxá e lá na minha terra temos o vício de chamar os garotos de meninos. Assim, quando me perguntavam do time, eu respondia que os meninos estavam bem”.
A definição era simples, mas se tornaria eterna. A imprensa passaria a identificar como a primeira geração dos Meninos da Vila o grupo campeão paulista em 1979. A segunda, para o noticiário esportivo, surgiria em 2002, com a conquista do Campeonato Brasileiro. Na prática, porém, o Santos sempre produziu gerações de jovens talentosos desde a sua fundação, há 108 anos.
Chico Formiga, o professor do time
O técnico Formiga foi um dos principais responsáveis pelo sucesso daquele Santos. Assumira o grupo no ano anterior à conquista e, conhecedor das categorias de base, promoveu vários jogadores em quem confiava. Sob seu comando, o time ganhou identidade, confiança e coragem para suportar um campeonato longo e uma decisão desgastante.
Mas a história daquele título não se explica apenas dentro de campo. Dois dirigentes tiveram papel decisivo na reconstrução santista. O primeiro foi o presidente Rubens Quintas Ovalle, que, ao assumir o clube em 1978, promoveu uma reformulação ampla, tanto no futebol quanto nas finanças, então bastante abaladas. O segundo foi José Ely Miranda, o eterno gerente Zito, que acreditou na capacidade de Formiga e o promoveu ao comando do time principal.
A importância daquele título se torna ainda mais evidente quando se lembra que o último Campeonato Paulista conquistado pelo Santos havia sido o de 1973, quando Pelé ainda fazia parte do elenco. Desde então, o clube atravessara anos difíceis, marcados por decepções, perda de prestígio e até chacota por parte das torcidas rivais. A imprensa esportiva, que por tanto tempo se habituara a exaltar o Santos, já não lhe dedicava o mesmo respeito.
Por isso, a conquista de 1979 teve um peso que ultrapassava a simples taça. Ela representou uma reafirmação histórica, uma prova de sobrevivência e, sobretudo, a promessa de um novo futuro.
O tempo mostraria que a esperança daquela noite não era exagerada. O Santos voltaria a conquistar o Paulista apenas em 1984, já com uma equipe reformulada. Depois, seria preciso esperar mais 18 anos até outro grande título: o Campeonato Brasileiro de 2002, vencido por uma nova geração de Meninos da Vila. Mas a primeira delas — a de 1979 — já havia garantido seu lugar definitivo na memória santista: a geração que, no frio do Morumbi, devolveu ao clube a alegria de ser campeão.