O gol que colocou a rua Javari no mapa do futebol mundial 

O gol que colocou a rua Javari no mapa do futebol mundial 

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória 

No dia 29 de agosto de 2006, a diretoria do CA Juventus em reconhecimento ao bonito gol do Pelé inaugurou um busto nas dependências do estádio Rodolfo Crespi, na famosa rua Javari. Esse busto foi uma forma encontrada pelos juventinos de tornar eterno esse gol que segundo o próprio Pelé foi o mais bonito que ele marcou em toda a sua carreira.

A obra-prima pintada pelo Atleta do Século aconteceu no dia 2 de agosto de 1959, um domingo abençoado por Deus. Essa joia da literatura esportiva mundial ocorreu diante do bravo time grená em partida válida pelo Campeonato Paulista e foi o gol de número 200 dos 1091 gols marcados pelo Rei com a mais famosa camisa 10 do futebol mundial em todos os tempos.

O time da Mooca também chamado de Moleque Travesso foi goleado pelo placar de 4 a 0, na partida de nº 1693 na história do Alvinegro praiano que atingia naquele dia a marca de 4648 gols assinalados desde sua fundação em 1912.

Esse tento magistral que hoje completa 62 anos foi fotografado em letras pelo Pena de Ouro da Literatura Esportiva Brasileira, o jornalista nascido em Ribeirão Preto (SP), Adriano Neiva da Motta e Silva, o Devaney, que no jornal A Tribuna de Santos assim descreveu o lance do quarto gol do Santos, aos 42 minutos da etapa complementar:

“No capítulo dos gols magistrais, o que Pelé assinalou, domingo, na rua Javari, há que ter um realce especial. Lances existem que, pela sua formosura técnica, a gente os traz gravados nos olhos, de regresso a casa.  

Esse, o de Pelé, 4º do Santos F. Clube ante o Juventus é o gol que se fixou na alma, no espírito, no coração, no sentimento inteiro de quem o viu surgir em meio de dois crepúsculos: o do dia, que se findava aos poucos, e o da partida, que se extinguia lentamente. 

Gols tenho eu os visto, magníficos, para mais de meia centena deles. Vi Friendereich, a matreirice em pessoa, derrubar os uruguaios de 19 com aquele tento-histórico que deu ao Brasil o seu primeiro título.  

Vi Nilo Murtinho Braga, furacão em feitio de gente, sacudir redes argentinas em vesperais de ouro. Vi Feitiço, pólvora seca em cada chanca, estraçalhar malhas escocesas com quatro petardos no dia em que os do Motherwell tombaram por 5 x 0. Vi Leônidas da Silva, todo de borracha, arrasar metas polonesas em concepções estupendas, dignas da magia que se continha em seus pés. 

Vi Heleno de Freitas, uma ofensa em cada chute, arrebentar cidadelas imbatíveis, em cotejos decisivos. Vi Carvalho Leite, um rompe-aço em cada arremate, vencer guardiões famosos em tiros devastadores. Vi Petronilho de Brito, um poema em cada lance, esconder a bola no fundo dos arcos inimigos como menino que brinca de chicote-queimado.  

Vi gols de todos os feitios, desde o que explode no fundo do retângulo como bomba de canhão, até o que chia ao contato dos barbantes encerados como azeite de alto custo em frigideira de ouro. Mas gol com aquele que Pelé presentou o mundo do futebol, domingo, na Moóca, eu creio que ninguém viu coisa igual até hoje. O gol de Pelé fez lembrar, até, a anedota do cidadão que após olhar demoradamente para a girafa, no jardim zoológico, comentou: “Isso não existe”. 

Três ou quatro gols? A dúvida permanece até hoje. 

O coringa Lima que esteve em campo jogando pelo time da Mooca afirma que foram três os jogadores juventinos que o Rei chapelou e não quatro. Segundo o craque que no ano seguinte teria a Vila Belmiro como sua nova casa no futebol e se consagraria jogando no melhor time do mundo descreveu assim o espetacular gol:

“A jogada teve início com Dorval que passou a bola ao Rei que já na nossa intermediária, encobriu Homero pegando a pelota na frente do nosso zagueiro Clóvis que desesperado viu a bola passar sobre sua cabeça e na sequencia o nosso goleiro Mão de Onça também foi chapelado ficando com o rosto na lama olhando o atacante santista cabecear mandando a bola para os fundos da nossa meta”. 

O Rei do Futebol comemorou socando o ar, gesto esse que se tornaria uma de suas marcas durante toda sua monumental carreira. O garoto prodígio que tinha, naquele momento, 18 anos, e vivia o esplendor de sua juventude, foi também o artilheiro do Campeonato Paulista daquele ano com 44 gols.

Além do Rei que marcou três gols na vitória santista, o ponta-direita Dorval foi o autor do outro tento na goleada que o time do Peixe comandado pelo técnico Luiz Alonso Perez, o Lula formou com Manga, Pavão e Mourão; Formiga, Ramiro e Zito; Dorval, Jair, Coutinho, Pelé e Pepe.