No dia da independência, a estreia e o primeiro gol do Rei

No dia da independência, a estreia e o primeiro gol do Rei

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória 

Em comemoração aos 134 anos da Independência do Brasil, ocorrida no dia 7 de setembro de 1822, data em que o Príncipe Regente Dom Pedro I, proclamou o país independente de Portugal, o prefeito de Santo André, Pedro Dell’Antonia, organizou uma programação para festejar o feriado nacional.

Nos eventos programados constava uma partida amistosa diante do time do Santos, campeão paulista do ano anterior e depois a noite um espetáculo show no Cine Santo André, com a apresentação da equipe do humorista Genésio Arruda, da rádio Record da capital paulista.

A partida foi disputada no Estádio Américo Guazzelli (hoje demolido), valendo o Troféu Independência, e o time santista venceu a equipe do Corinthians Futebol Clube da cidade do ABC pelo estonteante placar de 7 a 1.

O técnico Luiz Alonso Perez, o Lula, mandou a campo naquela distante e festiva sexta-feira, a seguinte formação: Manga, Hélvio e Ivan (depois Cássio); Ramiro (Fioti), Urubatão e Zito (Feijó); Alfredinho (Dorval), Álvaro (Raimundinho), Del Vecchio (Pelé), Jair Rosa Pinto e Tite.

O Corinthians, que tem o apelido de Galo Preto da Vila Alzira, também chamado carinhosamente pelos seus adeptos de Corintinha jogou com Antoninho (depois Zaluar), Bugre e Chicão (Itamar); Mendes, Zico e Chanca; Vilmar, Cica, Teleco (Baiano), Rubens e Dore. O árbitro foi Emilio Ramos.

O time praiano, aclamado como sendo o Campeão da Técnica e da Disciplina, estava vivendo uma fase auspiciosa naquele ano e era a sensação do futebol paulista, ocupando a dianteira da tabela do Torneio de Classificação organizado pela Federação Paulista de Futebol.

Essa estranha fase de classificação do torneio que daria acesso aos times participantes à disputa da fase final do campeonato paulista foi vencida de forma invicta pelo Santos que jogou 17 partidas, ganhando 13 e empatando 4, levando para a Baixada Santista o troféu Jorge dos Santos Caldeira. No ano seguinte, a FPF pôs fim ao torneio realizando a edição final do insólito certame.

No início do ano de 1957, o Alvinegro Praiano se sagraria Bicampeão Paulista vencendo o disputado torneio regional pela terceira vez desde que o mesmo teve inicio em 1902. A marcha “Leão do Mar” composta por Maugeri Neto e Maugeri Sobrinho foi feita para homenagear a conquista desses dois memoráveis feitos do time sensação do desporto nacional.

O primeiro dos 1282 gols marcados pelo Rei do Futebol 

Essa era a oitava vez em que as duas tradicionais equipes do estado de São Paulo se enfrentaram e também não foi desta feita que o popular Corintinha do grande ABC conseguiu sua primeira vitória nos confrontos disputados desde a primeira partida jogada no dia 21/10/1923 quando então foi derrotado por 3 a 0.

O clube, hoje presidido por um torcedor fanático do Peixe, José Orlando de Moura, o Jarrão, foi fundado em 15 de agosto de 1912, apenas quatro meses mais jovem que o Alvinegro Praiano, e sua sede social esta no mesmo local onde antes era o estádio em que o histórico encontro se desenrolou no remoto setembro, na charmosa Vila Alzira.

A partida disputada com portões abertos, no período vespertino debaixo de uma temperatura elevada foi dominada o tempo todo pelo time santista que impôs seu ritmo de jogo não deixando o “Galo da Vila Alzira” participar do jogo, o time Andreense foi um mero espectador.

 Santo André, 7 (ASP) – Surgiu, hoje, nesta cidade, a esperada reabilitação do Santos F.C., que, apesar de figurar na ponta da tabela do Torneio de Classificação da F.P.F., vinha, ultimamente, apresentando fracas exibições. Coube ao Corinthians, local, proporcionar essa reabilitação, uma vez que foi batido por 7 a 1, no jogo que ambos travaram hoje à tarde. O resultado por si só diz o que foi o espetáculo. Texto do jornal paulistano “O Estado de São Paulo”. 

Coube ao ponta-direita Alfredo Sampaio Filho, o Alfredinho lambreta, que ingressou no time do Alvinegro no ano anterior, o veloz atacante nascido na cidade de Cascável, no Ceará marcar o primeiro gol da goleada aos 33 minutos da etapa inicial.

O mineiro de Belo Horizonte, Emmanuelle Del Vecchio, artilheiro do paulista de 1955 com 22 gols, anotou o segundo tento ampliando o placar para 2 a 0. O craque nascido no Guarujá Álvaro José Rodrigues Valente fez o terceiro gol aos 36’ e novamente Alfredinho marcou o quarto aos 44 minutos, fechando o placar na primeira etapa, antevendo uma possível goleada na etapa complementar.

Já na fase derradeira, o artilheiro Del Vecchio voltaria a assinalar aos 16 minutos o quinto tento praiano. Foi quando então o técnico Lula decidiu dar uma chance ao garoto que veio de Bauru indicado por Waldemar de Brito e que vinha se destacando nos treinamentos com os profissionais na Vila Belmiro.

O garoto apelidado de “Gasolina” fez sua estreia jogando com desenvoltura não se intimidando com os zagueiros adversários que pouca atenção na marcação deram ao jovem atacante franzino do Santos. E aos 34 minutos o novato jogador do Peixe dominou a bola e a mandou para o fundo das redes, marcando aquele que seria o primeiro dos seus 1091 marcados somente com a camisa do Alvinegro.

O arqueiro do Corinthinha, Zaluar Torres Rodrigues, muito orgulhoso por ter sido o primeiro goleiro a levar um gol do Rei Pelé, mandou confeccionar um cartão de visitas com a inscrição: Zaluar – Gol do Rei Pelé – 001. Zaluar faleceu aos 69 anos, em outubro de 1995.

O vaidoso Zaluar assim descreveu o lance do gol:

 Eu tinha condições de defender aquela bola. Quando o Jair lançou o guri, gritei para o Chicão cobrir o Mário. A bola foi certinha. O Mário levou um chapéu e o Chicão quando apareceu o guri já estava diante de mim. Quando vi aquelas canelas finas, não tive coragem de entrar duro. Gritei apenas para o garoto soltar a bola. 

Pelé bem que ouviu o meu grito. Tanto que balançou o corpo pra a direita. Depois para a esquerda e, quando o goleiro pensou que a bola era dele, Pelé tocou a pelota entre as pernas de Zaluar. Os torcedores aplaudiram.  

Era o sexto gol do Santos, aos 81 minutos. Ninguém abraçou Pelé, que apanhou a bola dentro da meta e a levou debaixo do braço para o grande círculo. 

O gol me deixou desorientado, pois Pelé era um moleque. O pior é que a bola foi por entre as minhas pernas. Depois, no final, acabei ainda levando um gol de falta do Jair. No vestiário já tinha resolvido parar com o futebol.

Antônio Schank, que na súmula tem seu nome anotado como Chanca, descreveu anos depois de maneira diferente do goleiro Zaluar como foi a jogada do gol santista: “No lance do gol, o Hélvio, do Santos, tirou de cabeça, a bola sobrou no meio-campo, dei o combate no Pelé, mas tomei o drible. Ele passou pelo Zico, pelo Dati, nosso defensor, e tocou na saída do Zaluar”. 

O gol de honra do time da casa foi marcado por Vilmar aos 39 e, aos 44 minutos, o experiente Jair Rosa Pinto, o veterano craque nascido em Quatis, no Rio de Janeiro, definiu o placar de 7 a 1 para o seu time.

Dico, Gasolina e por último Pelé  

Mudaria alguma coisa se ao invés de Pelé o seu apelido tivesse vingado como Telé, maneira errônea pela qual o conservador jornal paulistano “O Estado de São Paulo” o grafou o nome do futuro Rei do Futebol. Quando fez sua primeira apresentação com a camisa branca com o nº 15 às costas, Pelé era um garoto com 15 anos 10 meses e 15 dias de vida, os jogadores experientes do time o chamavam de gasolina, pois ele era um jovem dotado de uma rapidez impressionante.

Ele havia chegado ao Santos vindo de Bauru, no dia 23 de julho de 1956, um dia de domingo. E debutou na equipe principal na partida de nº 1449 do time que ele no futuro não muito distante escreveria com letras douradas nas páginas de todos os jornais mundo afora.

A partir dessa data, aquele menino até então chamado de gasolina deixava de existir e surgia o mito Pelé.

A história da súmula desaparecida 

Como não se tratava de um jogo oficial e homologado pela FPF (Federação Paulista de Futebol), a súmula foi registrada de forma amadora, no verso de um papel timbrado do Corinthians de Santo André, e estava desaparecida, pelo menos é o que se pensava e se imaginava.

Aconteceu que o documento estava guardado na casa do falecido Nélson Sacilotto, ex-diretor do departamento de Educação, Cultura e Esportes de Santo André, que foi quem fez a súmula do jogo na goleada santista.

Foi seu filho, Milton Sacilotto, quem revelou a posse da súmula e contou que seu pai foi quem escreveu o nome de Pelé sobre o nome de Raimundinho, erroneamente anotado como o autor do gol. Segundo seu pai que era fanático por futebol e guardou com ele o documento que demorou em disponibilizar a súmula ao público porque fazia parte da herança do pai, morto em 1996.

Apesar da súmula ter ficado de posse de Nelson Sacilotto, é possível que ela tenha sido preenchida por Nelson Cerchiari, que sempre foi considerado o mesário daquela partida que somente 13 anos depois, em 1969, que ele, o responsável por elaborar a súmula deu conta de seu erro, ao ler em uma entrevista de Pelé, relatando que seu primeiro gol havia sido marcado naquele dia, em Santo André.

Ele então decidiu consertar o erro, pois lembra que no lance do sexto gol santista, o gol de Pelé, ele estava desatento e não viu quem marcou o tento, perguntando ao banco de reservas do Santos e alguém falou que tinha sido de autoria de Raimundinho e foi o nome de Raimundinho que ele anotou.

Diante da importância do fato, não tive dúvidas em fazer uma nova súmula, riscando o nome de Raimundinho e escrevendo o nome de Pelé”, explicou Nelson Cerchiari. Essa súmula hoje está exposta no Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa.