Feitiço, o artilheiro que desobedeceu ao Presidente da República

Feitiço, o artilheiro que desobedeceu ao Presidente da República

Por Guilherme Guarche, Centro de Memória

Filho de Luís Fernandes Macedo e Florisbela Pedroso Macedo, Luiz Macedo nasceu no dia 29 de setembro de 1901, um domingo, no famoso bairro do Bixiga, na capital paulista. O garoto começou sua vida no futebol bem jovem, com 13 anos de idade jogando na várzea da terra da garoa.

E foi no time amador de nome Jaceguai que ele demostrava sua habilidade no manejo da bola atraindo a atenção dos moradores do bairro. Em 1916 passou a defender a equipe do Ítalo Lusitano, um clube bem mais estruturado da região de Pinheiros.

Nessa época Luiz Macedo ganhou o apelido de Feitiço de uma vizinha que quando o via jogar bola na várzea paulistana, sempre dizia: “O Luizinho quando joga parece que tem feitiço nos pés”.

Daí em diante Feitiço seria um nome bem conhecido dos torcedores e foi na AA São Bento, também time da capital paulista, que ele começou a ganhar destaque e notoriedade. Ele foi o artilheiro do Campeonato Paulista nos anos de 1923/24 e 1925.

O clube que Feitiço defendia foi Campeão Paulista em 1925 e a diretoria dessa agremiação resolveu premiá-lo com uma carroça e foi com ela que ele fazia mudanças e outros serviços, o único prêmio que ele ganhou da equipe paulistana.

Com a carroça ficou um período trabalhando fazendo entregas pelas ruas de São Paulo, pois no futebol não conseguia ter rendimentos suficientes para se manter. Até que no inicio do ano de 1927 ele conheceu Antônio Araújo Cunha, um dos fundadores do Santos e por ele foi convidado a ingressar no Alvinegro Praiano. O artilheiro a principio relutou, mas depois voltou ao futebol.

Na Baixada Santista pelo time comandado por Urbano Caldeira ele consagrou-se em definitivo, sendo novamente o artilheiro máximo nos paulistas de 1929/30/31. No campeonato estadual de 1927, o time santista realizou 16 jogos e marcou 100 gols, com a média de 6,25 gols por jogo.

A linha ofensiva daquele ataque demolidor era composta por Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista e ficou famoso em todo o Brasil por ser conhecida como o “Ataque dos 100 gols” entrando para a história do futebol brasileiro. Nessa temporada Feitiço marcou 50 gols.

Feitiço, além de ser um centroavante raçudo e brigador, era também um excelente cabeceador, desferindo cabeçadas fortes e sempre bem colocadas e seus gols de bico marcaram também sua popularidade entre os torcedores santistas.

Jogador de pavio curto e genioso foi personagem central de um episódio que lhe custou a expulsão temporária do Santos, pois quando defendia a Seleção Paulista em um jogo contra a Seleção Carioca no estádio São Januário, no Rio de Janeiro, Feitiço se rebelou contra a marcação de uma penalidade máxima contra seu time.

Na plateia se fazia presente o Presidente da República, Washington Luís que não satisfeito com o comportamento do atleta que impedia a cobrança do pênalti, mandou que seu ajudante de ordens invadisse o campo transmitisse a ordem do presidente para que a cobrança fosse executada.

Feitiço, desrespeitando a ordem dada, falou ao emissário que “O Exmo. Presidente da República manda no Brasil, mas quem manda aqui em campo, somos nós. O pênalti foi batido e o selecionado paulista defendido por Feitiço saiu do campo amargando a derrota pelo placar de 2 a 1.

A consequência desse comportamento perante o mandatário maior do país foi que ele e o seu colega de selecionado e Santos, o goleiro Tuffy, foram afastados do Alvinegro. Guilherme Gonçalves, presidente santista naquele período, prezava pela disciplina e fez de tudo para que os dois fossem punidos em uma tumultuada assembleia na sede social na rua Itororó, 27.

Essa decisão do presidente que conquistou para o Santos o título de Campeão da Técnica e da Disciplina fez com que os dois jogadores titulares da agremiação santista perdessem a partida final do Paulista de 1927, diante do Palestra Itália. O Santos ficou com o vice-campeonato.

O goleiro Tuffy deixou o clube em definitivo, já Feitiço foi perdoado a pedido da Confederação Brasileira de Futebol que necessitava tê-lo em campo a defendê-la, pois o craque era muito importante e necessário em seu elenco. Feitiço retornou ao Santos em 1928.

No ano de 1932 ele recebeu proposta do Peñarol e deixou a Vila Belmiro jogando pela última vez no dia 2 de julho em partida amistosa diante de Portuguesa de Desportos na goleada do Peixe pelo placar de 5 a 1, com Logu marcando dois, Vitor Gonçalves, Mário Seixas e Feitiço completaram a goleada com um gol cada um.

Lá no Uruguai foi um dos grandes ídolos do time do Peñarol encantando os torcedores da Celeste Olímpica que admiravam e elogiavam o seu futebol, tanto é que foi convidado a atuar na Seleção Nacional jogado em algumas partidas não oficiais e por pouco não se naturalizou uruguaio.

Na volta ao território brasileiro, curtindo férias em 1936, atuou em um amistoso contra um combinado santista e como não poderia deixar de ser marcou mais um gol, e antes de encerrar em definitivo a carreira jogou pelo Vasco, Palestra Itália e São Cristóvão/RJ.

Alguns torcedores da Baixada Santista que idolatravam o jogador fundaram um clube ao qual deram o nome de Feitiço Atlético Clube e anos depois mudou de nome e passou a ser São Vicente AC.

O grande Araken Patusca que com Feitiço formou no ataque santista no mágico “Ataque dos 100 gols” definia o companheiro com o mais raçudo e valente centroavante que ele conheceu.

Feitiço, sem maiores explicações, acrescentou ao seu nome o sobrenome Matoso, vestiu a camisa do Alvinegro em 151 partidas marcando 214 gols, e é o quinto maior artilheiro da história do Santos.

E foi no dia 23 de agosto de 1985, aos 83 anos que o artilheiro Feitiço veio a óbito quando frequentava a Associação dos Veteranos, em São Paulo.