Dois goleiros, duas histórias, uma dupla de heróis na meta santista 

Dois goleiros, duas histórias, uma dupla de heróis na meta santista 

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória

Natural de Santos, Gylmar dos Santos Neves, veio ao mundo no dia 22 de agosto de 1930, uma sexta-feira, e quinze anos depois iniciava sua carreira no mundo do futebol jogando na meta do time amador dos Portuários de Santos, equipe da Cia. Docas de Santos.

Aos 19 anos era conhecido como “Cabo Neves” e encerrou sua participação no Exército Nacional dedicando-se única e exclusivamente a carreira de jogador de futebol, como goleiro titular do então “Leão do Macuco”.

Depois do Jabaquara, Gylmar jogou no Corinthians Paulista, quando foi comprado como “contrapeso”, pois os dirigentes do time da capital queriam levar o meio-campista Ciciá. O Jabaquara só fechou a negociação se o clube também levasse Gylmar junto, e foi o que aconteceu.

Na equipe da capital permaneceu até o ano de 1961. Sua volta à terra natal se deu quando já tinha 31 anos, para atuar na meta do Alvinegro Praiano, onde fez sua estreia na meta santista no dia 7 de janeiro de 1962, diante do Barcelona de Guayaquil, no Equador em amistoso vencido pelo Peixe pelo placar de 6 a 2, com Coutinho marcando quatro gols e Zito e Pepe um tento cada um.

O time dirigido por Luiz Alonso Perez, o Lula formou com: Laércio (Gylmar), Olavo e Décio Brito; Lima, Calvet (Formiga) e Zito (Getúlio); Dorval, Tite (Mengálvio), Coutinho, Pelé (Pagão) e Pepe (Tite). Com sua fleuma debaixo da meta exibindo frieza e liderança, Gylmar demonstrava ao grupo confiança a frente do gol praiano.

Nas difíceis partidas das finais da Taça Libertadores de 1962 e 1963, suportou a catinga imposta primeiro pelos uruguaios do Peñarol, depois pelos argentinos do Boca Juniors. Suas atuações diante dos fortes times sul-americanos foram muito elogiadas por toda a imprensa brasileira.

O “Girafa”, apelido que o acompanhava desde o início da carreira devido a sua altura (1,81), consagrou-se no Santos durante o período de 1962 a 1969 vestindo a camisa santista em 331 ocasiões, revezando no arco com os goleiros: Laércio, Silas, Cláudio e Aguinaldo. Na Seleção Brasileira jogou 103 vezes.

O notável guardião é o 4º goleiro que mais vezes defendeu a meta do Peixe. Seus títulos conquistados no Alvinegro Praiano foram:

Campeão Mundial (1962/1963), Campeão Sul-Americano (1962/1963), Campeão Brasileiro (1962/1963/1964/1965/1968), Campeão Torneio Rio-São Paulo (1963/1964/1966), Campeão Paulista (1962/1964/1965/1967/1968), Campeão Recopa Sul-Americana (1968) e Campeão Recopa Mundial (1968).

Sua última participação na meta do Peixe foi no dia 05 de outubro de 1969, na derrota diante do Cruzeiro por 3 a 2, no Torneio Roberto Gomes Pedrosa no Morumbi, com Edu e Douglas marcando para o Santos, que formou na despedida do goleiro com: Gylmar, Lima, Djalma Dias, Joel Camargo e Turcão; Clodoaldo e Nenê (Negreiros); Manoel Maria, Douglas, Edu e Abel (Coutinho). O técnico era Antônio Fernandes, o Antoninho.

No decorrer de sua carreira sempre se portou com lealdade e nunca reclamou dos árbitros, e por isso recebeu o troféu Belfort Duarte, que era ofertado aos atletas mais disciplinados dentro dos gramados.

Após se aposentar na meta santista, o craque trabalhou em sua concessionária de automóveis na capital paulista e assumiu cargos administrativos na Confederação Brasileira de Futebol e na Secretaria Municipal de Esportes Paulistana.

Vítima de um infarto fulminante, o melhor arqueiro que defendeu a meta santista faleceu na capital paulista no dia 25 de agosto de 2013, apenas três dias após completar 83 anos.

Cláudio, o goleiro de pouca estatura que era um gigante na pequena área 

Outro grande goleiro que o Santos teve em suas fileiras foi Cláudio César de Aguiar Mauriz, nascido também no dia 22 de agosto, porém 10 anos depois do seu companheiro de time, Gylmar.

Ainda bem jovem, com apenas 20 anos, Cláudio iniciou sua trajetória jogando no time do Fluminense em 1961, onde foi aluno de Carlos José Castilho, grande goleiro e técnico, campeão paulista pelo Peixe em 1984.

Nos anos seguintes até 1965, jogou no Olaria e no Bonsucesso, vindo nesse mesmo ano para o Santos. Cláudio não tinha uma estatura ideal para goleiros (1,75), mas sua colocação e sua agilidade compensavam esse quesito.

Ele era dotado de uma inteligência rara no meio futebolístico, falava inglês e espanhol fluentemente e ajudava os colegas de time nas excursões que o Santos realizava no Exterior. Era um goleiro arrojado e não temia o confronto com os atacantes adversários.

Seu primeiro título na Vila Belmiro foi o Torneio Rio-São Paulo em 1966, depois foi campeão paulista por cinco vezes, campeão brasileiro em 1965 e 1968.

Na Seleção Brasileira 

Ele seria um dos goleiros convocados para disputar a Copa do Mundo, em 1970, no México, no entanto, apesar de ser um dos preferidos do técnico João Saldanha, ele não teve essa oportunidade, pois os problemas no joelho, o deixaram fora da Seleção. Disputou no Selecionado 10 partidas oficiais.

Uma grave contusão, também em um dos joelhos, o tirou das quatro linhas durante 32 meses. Foram dois anos e sete meses fora da equipe santista, retornando em 1972, onde permaneceu no elenco até o final do Campeonato Paulista de 1973.

A última vez em que defendeu o arco do Peixe foi no dia 19 de junho de 1973, em Baltimore, nos Estados Unidos, em partida amistosa vencida pelo Santos por 4 a 0, frente ao Baltimore Bays, com Pelé e Euzébio cada um marcando dois gols.

Na etapa complementar curiosamente, o Rei Pelé foi quem o substituiu na partida. Nesse jogo de despedida, o time santista escalado pelo técnico José Macia, o Pepe, formou com Cláudio (Pelé), Vicente, Marinho, Marçal (Turcão), Zé Carlos; Léo Oliveira e Pitico; Jair da Costa (Adílson), Euzébio, Pelé (Nelsi) e Ferreira.

Entre os anos de 1965 e 1973, disputou 232 partidas pelo Santos, sendo o 10º goleiro que mais vezes defendeu a meta santista. Cláudio faleceu antes de completar 39 anos, na cidade de Nova York, no dia 24 de julho de 1979, onde estava internado se tratando de um câncer nas cordas vocais.

Gylmar do Santos Neves e Cláudio César Aguiar Mauriz, dois eternos e fenomenais goleiros na história do Santos e do futebol brasileiro, nascidos no mesmo dia e mesmo mês, estarão sempre na memória e na lembrança dos grandes ídolos que defenderam a meta santista.