A história de um presidente vitorioso

A história de um presidente vitorioso

Por Guilherme Guarche, do Centro de Memória 

Foi em Itu, a simpática cidade paulista, conhecida como “O Berço da República” de onde veio ao mundo, aquele que sem dúvidas haveria de eternizar seu nome como o presidente que dirigiu os destinos do Santos durante 26 longevos anos.

Athié Jorge Coury, o grande mandatário santista, nasceu na distante segunda-feira de 1º de agosto de 1904. Fez o curso primário e o secundário no Colégio São Luís em sua terra natal. Depois foi morar em Piracicaba (SP), cursando até o segundo ano de Agrimensura, depois no Colégio Mackenzie formou-se em Economia.

Sua ligação com o Santos começou quando os dirigentes santistas Ricardo Pinto de Oliveira e Zeca Ratto o convenceram a jogar no Alvinegro na época em que defendia as cores do Esporte Clube Sírio na capital paulista.

Ao concordar em descer a serra em direção à Baixada Santista, se tornou sócio de uma corretora de café, período em que o Brasil era o maior produtor e exportador de sementes da fruta do café. Sua filiação ao Alvinegro ocorreu no dia 9 de setembro de 1927, e seu proponente foi o presidente e seu grande amigo Guilherme Gonçalves que atendeu a uma solicitação do diretor-geral de esportes, Urbano Caldeira.

O homem que deu seu nome ao estádio do Peixe queria um goleiro para jogar no segundo quadro, ficando na reserva do então titular Tuffy, que seria expulso do time da Vila Belmiro dois meses depois.

Como goleiro Athié foi um dos melhores do Brasil, defendendo a meta praiana de 1927 a 1934. Foi um dos responsáveis pela consagração do time que até hoje é sempre lembrado como “O time do ataque dos 100 gols”.

Esse time que tinha um ataque demolidor composto por Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista, tinha também além de Athié no arco, os defensores Bilu e Aristides (David), Osvaldo, Júlio e Alfredo, todos comandados por Urbano Caldeira.

 Um goleiro corajoso e destemido 

 Sua estreia no arco santista se deu no dia 9 de outubro de 1927, quando era um jovem sonhador de apenas 23 anos. Em partida amistosa realizada na Vila Belmiro, naquele remoto domingo, Feitiço marcou cinco, Siriri três e Camarão um gol.

Nos anos posteriores era sempre convocado para atuar na Seleção Paulista e seu nome era dado como certo para ser o goleiro principal da Seleção Brasileira, na primeira Copa do Mundo de Futebol, em 1930.

No entanto, devido ao desentendimento entre os dirigentes paulistas e a então Confederação Brasileira de Futebol (CBD), nenhum atleta foi convocado e Athié acabou ficando de fora da competição mundial no vizinho Uruguai.

Na Revolução Constituinte de 1932, ele foi o segundo-tenente comissionado lutando e defendendo o Estado Paulista. Fez parte dos atletas-soldados, que se empenharam para que a Constituição fosse respeitada pelo então presidente Getúlio Vargas.

Jogou pela última vez com a camisa do Alvinegro em 15 de abril de 1934, na derrota para o forte time do Palestra Itália, hoje Palmeiras, por 3 a 0, no estádio Urbano Caldeira, pelo Campeonato Paulista. Em seu lugar passou a jogar Cyro Maciel Portieri “O gato preto”.

Durante o período em que esteve à frente do arco praiano, Athié atuou em 171 partidas, e é o 14º goleiro que mais vezes jogou na meta santista.

A frente do clube como presidente

A princípio começou na parte diretiva do clube como diretor de esportes depois foi eleito presidente em 27 de fevereiro de 1945, sucedendo a Antônio Ezequiel Feliciano da Silva. Um de seus vice-presidentes era Ulysses Silveira Guimarães que depois se tornaria um eminente político ficando conhecido como o “Senhor Diretas”.

Athié foi filiado ao Partido Social Progressista (PSP), pelo qual se elegeu vereador em Santos, exercendo a vereança na Câmara Municipal de 1947 a 1949. Durante seu mandato doou seus proventos às entidades assistenciais locais e também à Santa Casa de Santos.

Elegeu-se deputado estadual em 1950, exercendo o mandato em várias ocasiões até 1963, quando foi proclamado deputado federal, ficando no Congresso Nacional até 1982. Na vida pública portou-se com louvor defendendo os interesses da cidade e de seus trabalhadores.

Como presidente montou o melhor time do mundo. 

E foi durante o seu longo período como mandatário maior do Peixe que o clube conquistou as maiores glórias que um clube de futebol poderia conquistar, como os bicampeonatos da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes.

Resistiu com denodo às ofertas tentadoras de clubes estrangeiros que queriam contratar os principais ídolos do Alvinegro, principalmente o Rei Pelé. Nessa fase áurea, o Santos peregrinou mundo afora, se exibindo nos quatros cantos da Terra, jogando sempre em estádios lotados.

Na África, em 1969, o time praiano parou uma guerra na Nigéria e promoveu a paz em regiões onde Pelé era reverenciado como um Deus da bola. A revista argentina El Gráfico elegeu o time bicampeão mundial como sendo o melhor time de todos os tempos.

Seus atos e sua conduta pessoal sempre delegando poderes e funções, foram os destaques de sua gestão entre 1945 e 1971, Athié perdeu nas urnas para Vasco José Faé, e decidiu que era chegada a hora de se afastar da vida política do Campeão da Técnica e da Disciplina dedicando-se a sua carreira em Brasília.

A família Barletta e sua contribuição na vida do Alvinegro 

A lado de Athié durante sua gestão estiveram servindo ao Santos dirigentes prestativos e não remunerados como Modesto Roma, Nicolau Moran, Katutoshi Ono, Osman Ribeiro de Moura e Augusto da Silva Saraiva dentre outros.

No entanto justiça tem que ser feita a um nome que merece ser citado como o de um notável abnegado que é o nome de Florival Barletta, em um capítulo à parte na gestão de Athié.

Barletta tem que ser enaltecido por todos os que verdadeiramente gostam do clube, ele que durante muitos anos trabalhou no comércio cafeeiro local e foi um dedicado vereador na cidade de Santos durante quatro gestões.

Barletta foi dirigente servindo em vários setores do clube ao qual se dedicou a partir de 1935, ano em que o Peixe conquistou seu primeiro título de campeão paulista chefiando inúmeras delegações do time ao exterior e exercendo a presidência do Conselho Deliberativo em 1982/83, e também a presidência substituindo o presidente Milton Teixeira em algumas oportunidades.

Na época áurea do café em Santos, Barletta colaborou muito com a diretoria doando sacos e mais sacos do produto com o qual o clube adquiriu recursos para a compra de jogadores e pagamentos de bichos aos atletas, e também para a construção de arquibancadas e da iluminação do estádio santista.

Florival Amado Barletta seu filho que herdou do pai o amor pelo clube foi também presidente do Conselho do Santos em duas oportunidades, a primeira nos anos de 1997/99 e a segunda nos anos de 2005/07.

Florival Amado trabalhou muito pelo voleibol do Alvinegro e em 1969 chefiou a delegação da equipe juvenil que viajou a Alemanha Ocidental para disputar o Torneio Internacional do Largo de Constanza, o técnico era Ernesto Marques, o médico Lauro Coury, o massagista Salu e os atletas: Justo, Queiroga, Hermes, Alves, Ribeiro, Marco Antônio, Cláudio, Mário, Fito, Léo, Nenê, Ibraim, Mané Maria, Orlando II, Luiz Werneck, Paulo Roberto, Almiro e Gaspar.

Athié presidiu a Bolsa de Café de Santos e colaborou com o prefeito da cidade Paulo Gomes Barbosa, na conquista do terreno que pertencia ao Instituto Brasileiro de Café (IBC), no bairro do Saboó, onde hoje está o Complexo Chico Formiga.

Em sua homenagem o Alvinegro deu seu nome ao ginásio de esportes, inaugurado no estádio Urbano Caldeira, em 1950. Recebeu também o título de Presidente Emérito do Santos.

Já o Governo Federal deu seu nome ao Conjunto Habitacional na entrada da cidade e o Estadual denominou um colégio no bairro da Aparecida de Olga Coury, mãe do eterno presidente santista.

Durante os anos em que presidiu o Peixe, o time principal jogou 1 687 partidas, obtendo 1 035 vitórias, 291 empates e 361 derrotas com 4 630 gols marcados e 2 549 gols sofridos.

O maior líder do Alvinegro em toda sua centenária história fora das quatro linhas faleceu numa terça-feira, em 1º de dezembro de 1992, aos 88 anos, no Hospital Beneficência Portuguesa, em Santos, a cidade que Athié aprendeu a amar e respeitar como poucos.

Títulos conquistados em sua gestão vitoriosa:

1948 – Taça Cidade de Santos e Taça das Taças

1949 – Taça Cidade de São Paulo

1951 – Torneio Quadrangular de Belo Horizonte

1952 – Taça Santos

1955 – Campeonato Paulista

1956 – Campeonato Paulista, Torneio Internacional da FPF, Taça San-São e Taça dos Invictos

1958 – Campeonato Paulista

1959 – Torneio Rio-São Paulo, Troféu Teresa Herrera, Torneio de Valença, Torneio Pentagonal do México e Torneio Mário Echandi

1960 – Campeonato Paulista, Torneio de Paris e Troféu Giallorosso

1961 – Campeonato Brasileiro, Campeonato Paulista, Torneio Itália, Torneio de Paris, Triangular da Costa Rica e Pentagonal de Guadalajara

1962 – Taça Libertadores da América, Mundial Interclubes, Campeonato Brasileiro e Paulista

1963 – Taça Libertadores da América, Mundial Interclubes, Campeonato Brasileiro e Torneio Rio-São Paulo

1964 – Campeonato Brasileiro, Campeonato Paulista e Torneio Rio-São Paulo

1965 – Campeonato Brasileiro, Campeonato Paulista, Quadrangular de Buenos Aires, Torneio Centenário de Caracas e Hexagonal do Chile

1966 – Torneio Rio-São Paulo e Torneio de Nova York

1967 – Campeonato Paulista e Torneio Triangular Florença-Roma

1968 – Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro, Recopa Sul-Americana e Mundial, Pentagonal de Buenos Aires, Torneio Octogonal do Chile e Torneio da Amazônia.

1969 – Campeonato Paulista e Torneio de Cuiabá

1970 – Torneio Hexagonal do Chile, Taça Cidade de São Paulo e Torneio Triangular da Guatemala

1971 – Torneio Triangular da Jamaica.