100 gols de um time cheio de magia

100 gols de um time cheio de magia

Por Guilherme Guarche do Centro de Memória
Colaboração de Evaldo Rodrigues da ASSOPHIS

Os fogos do Reveillon anunciam um ano que começa e amanhã já tem amistoso na Vila, 11 x 1 no Ipiranga, um ano que promete. O ano era 1927, um time que já se conhece, capitaneado por Araken, o gol man, ainda vai chegar Feitiço em dia de festa e taça, e esse é do bom, até porque tem Evangelista, tem os irmãos que vieram do mar, Siriri e Camarão, tem Omar, tem os irmãos Pimenta, David e Renato, quem aguenta? O ótimo goleiro Tuffy, Bilu que seria campeão como técnico, tinha Hugo, Júlio, Alfredo, enfim um time de meter medo.

O Santos desiste de disputar o Campeonato Paulista extra da APEA alegando forte calor, e em abril já tem taça na Vila contra o fortíssimo Palestra Itália, 3 x 2, gols de Araken, Camarão e do estreante Feitiço, e partiu Campeonato Paulista, os números são surreais, que beiram o absurdo. Nos primeiros 11 jogos, 88 gols, a inimaginável média de oito gols por jogo, os artilheiros Araken e Feitiço já tinham feito juntos 62 gols, 34 e 28 respectivamente. Ah, mas devia ser só jogos moleza: 10 no Guarani, oito no Corinthians e cinco na Portuguesa.

Podia vir quem quiser que os meninos chamavam de Zé, até que, no caminho, um presidente, uma final do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, 23 de novembro de 1927, no Rio de Janeiro, então capital Federal, um jogo que acabaria mal. O resultado pouca importa, nem há necessidade de menção, um pênalti, uma intervenção, uma discussão entre o presidente Washington Luis e o menino goleador Feitiço e o excelente goleiro Tuffy. Ainda no estádio o presidente do Santos Guilherme Gonçalves dá o seu veredicto: a decisão tomada foi suspender os dois, o Paulista a gente vê depois, afinal era o presidente, decisão que chancelaria o “título de Campeão da Técnica e da Disciplina” recebidos meses atrás na inauguração do estádio de São Januário.

Porém, sem os dois, o time sentiu bastante, passados alguns meses, Feitiço foi anistiado, mas Tuffy foi para o outro lado, foi fazer muito sucesso no arquirrival da capital, e o ano de 1927 terminou, e assim que o ano seguinte chegou, o campeonato continuou, mas sem o mesmo brilho para o time do mar: derrota para o Palestra Itália (atual Palmeiras) e início do Quadrangular, dois alviverdes e dois alvinegros, Santos, Corinthians, Palestra Itália e Guarani.

Depois de vitórias sobre Guarani (4×2) e Corinthians (1×0), veio a grande final, com 15 anos de existência, a chance do primeiro estadual, bem que poderíamos ser campeão com Feitiço, que mal havia nisso, mas o Palestra desceu a serra acompanhado. Se quisesse ser campeão lhe custaria caro, mas depois do presidente Washington Luiz e do nosso presidente Guilherme Gonçalves, agora um árbitro por nome Molinaro, Antero Molinaro para ser mais exato, e o enredo que aconteceu outras vezes, em outros campeonatos.

Parece conversa de torcedor chato, mas a arbitragem foi desastrosa, erros fatais, um gol anulado, dois pênaltis não marcados, e quando a torcida não aguentava mais, invasão, e até cavalaria, o campeonato ali acabaria, com os sentimentos de injustiça e melancolia, com os gols da derrota de 2 x 3 chegou a 100, tudo isso em 16 jogos, média de 6,25 gols por jogo, recorde que jamais foi alcançado, nem na era Pelé este recorde foi quebrado, e naquele final de tarde na Vila famosa, o clube saiu de campo para entrar para a história, campeões em nossos corações.

Naquele fatídico 4 de Março de 1928 estavam em campo dois campeões do nosso primeiro título paulista em 1935, o lateral Bilú, que seria o técnico e o já experiente Araken Patuska, goleador máximo do campeonato com 36 gols, e ainda tínhamos no gol Athiê Jorge Cury que viria a ser o presidente mais vitorioso de nossa riquíssima história.